Na semana indígena, oficinas do Biizu reforçam o papel social da comunicação

A abertura do olhar para novos caminhos e possibilidades. Assim são as oficinas do Biizu, projeto da Secretaria de Estado de Comunicação (Secom), que pelo segundo ano consecutivo ocorrem durante a Semana dos Povos Indígenas em São Félix do Xingu, no sudeste do Pará. Na sala de aula, na Escola Missão, centro da cidade, os olhares curiosos e atentos mostram o interesse dos participantes sobre as ferramentas usadas para contar uma história. Quando o texto, a fotografia e o audiovisual se encontram, o resultado é um canal do qual comunidades carentes que, em geral, só querem ser ouvidas, podem se apropriar.

Para a maioria dos cerca de 30 participantes das oficinas, a Semana dos Povos Indígenas ganhou uma nova dimensão. Embora São Félix do Xingu seja berço das tribos Kayapó – e a convivência entre índios e brancos seja mais comum, no meio urbano, do que em muitas outras cidades paraenses –, muitos jovens ainda não compreendiam a importância de um evento que proporciona às populações tradicionais espaços não raramente negados. “Estou adorando, porque, além de aprender sobre fotografia, uma paixão, expandi meu pensamento acerca dos direitos indígenas”, atestou a estudante Kaiona dos Santos, 15 anos.

Contato

A convivência, de fato, ajuda a deixar de lado o estranhamento. A presença de alunos indígenas na sala de aula desmistifica ideias e quebra preconceitos. A estudante Kariny Gabrielly Rodrigues, 15 anos, se surpreendeu com a dinâmica do ofício, que, para ela, expande horizontes. “Nunca pensei que fotografar pudesse ter esse poder de transformar. Não é só captar uma bela imagem. É um trabalho social. Estou muito feliz em poder participar da oficina e só tenho a agradecer”, contou ela, revelando o desejo de enveredar pelos caminhos da comunicação. “Estou muito empolgada. Gostaria de aprender ainda mais para, quem sabe, um dia ser uma fotógrafa profissional”.

No fundo da sala, tímido, mas com olhar atento, Bepnhum Kayapó assiste a tudo com grande interesse. Afinal, a comunicação é um dos caminhos para dar voz a seu povo. Sem falar muito – quem sabe para exercitar a capacidade de observação, tão cara ao bom comunicador –, o jovem indígena da aldeia Kruwanhangô registra a fala da instrutora Desiree Giusti como se ouvisse as instruções do cacique antes da guerra. O interesse ficou ainda mais claro quando, na quadra da Praça do Triângulo, onde os índios faziam uma apresentação, o rapaz pegou uma câmera e começou a registrar o momento. “Estou feliz em participar da oficina e em receber todos aqui”, resumiu, falando muito mais com o olhar.

Abrangência

Assim que a equipe da Agência Pará chegou para registrar as oficinas, os alunos ficaram ainda mais curiosos sobre o trabalho da comunicação. Começou, então, um bate-papo com os profissionais que fazem a cobertura da Semana dos Povos Indígenas para os veículos oficiais do governo. O repórter fotográfico Rodolfo Oliveira e os jornalistas Carol Amorim e Luiz Carlos Santos contaram um pouco da rotina, desafios e papel do comunicador. Em cada depoimento, a constatação sobre a integração das ferramentas e linguagens e o papel social da comunicação.

A coordenadora do Biizu na Semana dos Povos Indígenas, Érika Vilhena, diz ser este o papel do projeto: provocar possibilidades de transformação social a partir das ferramentas da comunicação. “Percebemos que os participantes estão ávidos pelo conhecimento. E como trabalhamos com comunidades carentes, em geral, sem acesso a esse tipo de ação, o retorno é sempre muito bom. Aqui em São Félix do Xingu estamos com um público jovem, estudantes na faixa etária dos 13 aos 16 anos, que passaram a compreender melhor a própria realidade a partir das oficinas”, explicou.

A busca por novas oportunidades, não para si, mas para as futuras gerações, é o objetivo do auxiliar de serviços gerais Domingos Alves, 45 anos. Pai da estudante Amanda Rocha, 13, que participa da oficina de audiovisual, ele sabe bem como é a luta do movimento indígena, já que há 18 anos trabalha nas aldeias, exercendo funções diversas, de pedreiro a motorista. “Fiz questão de inscrever a minha filha na oficina do projeto Biizu assim que soube da atividade. Espero que ela use esse conhecimento em prol dos mais necessitados, e no processo, tenha condições de ser uma pessoa digna, do bem”, afirmou.

As oficinas do projeto Biizu serão concluídas nesta quinta-feira (19), no Dia do Índio, com conteúdo produzido pelos próprios alunos. A pauta não poderia ser outra: as fotos, vídeos e textos vão falar sobre a Semana dos Povos Indígenas. Ao final, todos receberão certificados, atestando que, a partir de agora, estão aptos a exercitar aquele novo olhar, mais humano, atento e social.

Comentários