CPI convoca pesquisadores para explicarem divergências em laudos

O vazamento produzido pela empresa Hydro Alunorte em fevereiro deste ano causou ou não contaminação no meio ambiente? Para responder a esse questionamento, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga danos ambientais ocorridos na bacia hidrográfica do rio Pará ouviu durante a tarde desta segunda-feira (07.05) pesquisadores de várias instituições. O objetivo era entender os laudos emitidos por essas instituições científicas e contrapor ao que a empresa alega, de que não houve contaminação.

Laudos da Universidade Federal do Pará, do  Instituto Evandro Chagas e dos peritos do Instituto de Perícias Científicas e da Secretaria de Saúde do Estado foram detalhados pelos pesquisadores.

Depois de ouvir pela manhã os responsáveis da empresa de consultoria contratada pela Hydro Alunorte para elaboração de laudo técnico favorável à empresa, os deputados ouviram a doutora e pesquisadora da UFPA, Simone Pereira, coordenadora do Laboratório de Química Analítica. Segundo ela, “este ano, a UFPA não fez nenhuma análise de amostragem específica por conta do vazamento na Hydro, em 17 de fevereiro, mas fazemos o acompanhamento e análises na região desde 2009, e confirmamos que há níveis altos de contaminação por alumínio na água. Esses níveis aumentam consideravelmente sempre que ocorrem episódios de acidentes ambientais como esse”, avaliou a pesquisadora. Ela também confirmou a possibilidade de identificar essa contaminação por meio de análise do cabelo dos moradores da área. “Qualquer tecido ou parte do corpo pode ser avaliado e identificar essa contaminação”, garante.

Marcelo Oliveira Lima, do Instituto Evandro Chagas, também relatou que são feitas análises na região do pólo industrial de Barcarena desde 2003. Segundo ele, “a prática das empresas é fazer apenas a correção do PH das águas, sem fazer o controle da emissão de metais pesados”. Questionado sobre o chamado Canal Velho, que a Hydro afirmou estar desativado, ele contestou. “Não foi o que nos informaram em nossas visitas em campo. O que constatamos é que esse canal era utilizado como um ‘by pass’, para ecoar o excesso de volume das bacias de rejeitos constantemente e isso era feito sem tratamento algum”.

Marcelo Lima lembrou que toda a área da empresa, inclusive onde ficam as bacias de rejeitos, tem monitoramento por câmeras, que poderiam ter registrado o vazamento

O presidente da CPI, deputado Neil, lembrou que já solicitou as imagens para a empresa, que alegou pane nos equipamentos no dia do acidente ambiental. O relator, deputado Celso Sabino, solicitou apoio da justiça para requerer a busca e apreensão desses equipamentos para serem periciados e verificar se realmente não houve o registro.

Todas as informações coletadas dos depoimentos desta segunda-feira servirão de embasamento para a acareação marcada para esta terça-feira (08.05). Os pesquisadores e a consultoria contratada pela empresa norueguesa, a professora Simone Pereira da UFPa e o Dr. Marcelo Oliveira Lima do IEC, terão a oportunidade de comparar os laudos e confrontar as informações conflitantes.

Trabalhadores – Uma comitiva com 100 trabalhadores de Barcarena esteve na Assembleia Legislativa nesta segunda-feira (07.05). São funcionários da Hydro e de empresas terceirizadas e empregados do porto de Barcarena. Depois de acompanharem o depoimento do representante da consultoria contratada pela Hydro, eles conversaram com os deputados Neil Duarte e Celso Sabino – presidente e relator da CPI.

Os trabalhadores querem o fim do embargo de 50% da produção da Hydro, decretado pela justiça após o vazamento. “Essa situação é muito preocupante para nós, porque nossos empregos dependem disso”, diz o presidente do sindicato dos químicos de Barcarena, Gilvandro Santa Brígida.

Segundo ele, a Hydro ainda não demitiu funcionários por conta de uma liminar conseguida na justiça pelo sindicato, “Mas a empresa recorreu e conseguiu a autorização para demitir até 5% dos funcionários parados pelo embargo a cada mês. Em mais alguns dias, serão cerca de 400 trabalhadores desempregados, mas esse número pode chegar a muito mais”, avaliou ele.

Na zona portuária, o problema também preocupa. O presidente do SindiPorto, Rodrigo rabelo, estima que a receita da Companhia das docas já caiu em 50% sem a produção total da Hydro. “70% da receita da CDP depende da empresa, se manter esse embargo por mais tempo, vai comprometer o pagamento dos funcionários e também podem ocorrer demissões”, diz ele.

Eles defenderam que os trabalhadores estão sendo penalizados. “A justiça precisa dizer por quanto tempo vai manter o embargo, dizer o que precisa ser feito para acabar com ele, e então poderemos cobrar essas ações da Hydro. O que não pode é penalizar os trabalhadores”, afirma Gilvandro Santa Brígida.

O deputado Celso Sabino se comprometeu a intermediar uma reunião entre os sindicatos e o Ministério Público, para que as condições do embargo sejam esclarecidas.

A CPI - A comissão foi instalada em 20 de março passado, é presidida pelo deputado Coronel Neil, tendo como relator o deputado Celso Sabino. A CPI foi criada a partir de uma proposição do deputado Eliel Faustino, apensado ainda o requerimento do deputado Soldado Tércio, que foi considerado como coautor da proposição.

Os deputados da CPI já realizaram oito rodadas de oitivas, colhendo informações de 20 depoentes, produzindo ainda uma visita técnica nas dependências da empresa Hydro Alunorte. Além de depoimentos, a CPI já obteve laudos técnicos diversos de instituições públicas e de pesquisas. Imagens de vídeos, fotografias e áudios que corroboram para o trabalho de investigação.

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