Mães de crianças especiais mostram que ser diferente é normal

Ser mãe é “ter o coração batendo fora do peito”, entender o que é um amor incondicional, o que é amar além do próprio entendimento. Ser mãe é algo extraordinário, principalmente quando a vida de algumas mulheres as coloca na condição de ser mãe de uma criança especial. O desafio de garantir o desenvolvimento saudável dos filhos termina por ensinar, a essas mães, que ser diferente é normal.

“Foi um susto quando eu percebi que meu filho era diferente das outras crianças. Custei muito a aceitar e acho que é até hipocrisia dizer que se aceita bem. Não é assim. Não é, porque tudo o que queremos é que nossos filhos sejam crianças saudáveis, que não haja nenhum tipo de sofrimento na vida deles. No início, chorei muito, mas hoje, quando o vejo melhorando a cada dia, percebo que tudo vale a pena”, afirma a professora Francinete Santos, mãe de Luca Gabriel, de 3 anos, em processo de diagnóstico de ter 80% do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA).

Francinete e o filho moram no bairro de Águas Lindas, em Belém. A mãe de Luca é professora da Escola Municipal Maroja Neto, no distrito de Mosqueiro, onde leciona para crianças especiais, e para aonde vai e volta, todos os dias.

O menino é alegre, brincalhão e elétrico, mas se percebe que ele não articula frases e não interage com as pessoas à sua volta, a não ser com a mãe, a tia e um primo. “Quando ele tinha 1 ano e meio era muito difícil estar com ele em qualquer lugar onde houvesse mais pessoas. Ir a aniversários, shoppings ou praças era muito complicado, porque ele resistia a tudo. Até passar por portas de vidro era um sofrimento. Foi nesse momento que passei a entender que ele precisava de ajuda e começamos a maratona de consultas médicas e exames”, conta Francinete.    

Franci, como é conhecida pelos amigos, conta com a ajuda muito pessoal da irmã Maria Helena Santos, mãe de Heitor Gabriel, de 4 anos. “Eu passo o dia trabalhando e se não fosse a ajuda de minha irmã, não sei como eu teria conseguido tantos avanços para a saúde do meu filho. Eu sou muito grata, porque a convivência do Luca com a tia e com o primo é de suma importância ao desenvolvimento dele”, avalia.

Luca Gabriel estuda desde que tinha 1 ano e meio de idade. Ele frequenta uma escolinha pela manhã e à tarde, faz as terapias que o ajudam em seu desenvolvimento. Um ano depois de começar os tratamentos ele falou pela primeira vez as palavras “pai” e “água”. “Essa foi a primeira das muitas vitórias que ainda teremos com ele”, afirma Francinete.

Inclusão - O ano passado se encerrou com ótimos números na área da educação inclusiva em Belém. O Centro de Referência em Inclusão Educacional Gabriel Lima Mendes (Crie), que integra a Secretaria Municipal de Educação (Semec), da Prefeitura de Belém, presta assistência a mais de 300 alunos com TEA, que estão matriculados na rede pública municipal, desde a Educação Infantil até a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Esses números colocam Belém entre os líderes em atendimento da educação inclusiva no Brasil.

A Prefeitura de Belém desenvolve, por meio do Crie, o Programa de Atendimento às Necessidades Especiais do Transtorno do Espectro do Autismo (Proatea), que garante atividades lúdicas, atendimento psicopedagógico, linguagem, atividades de psicomotricidade e informática educacional e ainda estimula pesquisas de campo por meio das parcerias.

Com o Proatea, o Crie faz a avaliação e atendimento no próprio centro, que funciona na avenida Gentil Bittencourt, no bairro de Nazaré. Todos os estudantes com autismo da rede municipal de ensino de Belém recebem, até três vezes na semana, atendimento especializado no próprio, que conta com uma equipe multiprofissional, integrada por psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais.

Esses profissionais estimulam o desenvolvimento por meio do atendimento e também de projetos como “Ciranda da Família”, que busca aproximar os pais da escola, a fim de que possam relacionar-se de forma mais saudável com os filhos; “Artes Cênicas”; “Expressão”; “Bilíngue”; e “Talentos Paraolímpicos”, que os incentiva a praticar atividades físicas.

Lançado há um ano, o Proatea já registrou grande avanço no quadro evolutivo dos estudantes com autismo. Além disso, esses estudantes recebem atendimento domiciliar e nas próprias unidades de educação, por meio de Salas de Recursos Multifuncionais.

Atualmente, das 73 escolas de ensino infantil e fundamental de Belém, 54 possuem as Salas de Recursos Multifuncionais nas quais, duas vezes por semana, o aluno é atendido por equipes multiprofissionais.

A soma de recursos e o desenvolvimento positivo dos alunos com deficiência vêm qualificando, cada vez mais, a educação inclusiva em Belém. Em 2013, o número de alunos com deficiência era pouco mais de 400. E em levantamentos de 2016, esse número se elevou para mais de dois mil estudantes com algum tipo de deficiência.

Clarice - A menina Clarice, de 5 anos, desarma qualquer um com sua alegria e agitação. A garota, em meio às muitas coisas que ela consegue fazer ao mesmo tempo, para perto de uma pessoa e diz, do nada, “Me dá um abraço!”. Logo que é atendida, já sai correndo atrás de outro interesse. Clarice, aos 2 anos e meio, teve fechado o diagnóstico de TEA.

Clarice é “coração fora do peito”, a única filha da psicopedagoga do Crie Priscila Caseiro de Oliveira, que também trabalha com crianças especiais. “Meu trabalho aqui no Crie é facilitado porque tenho uma filha especial. Quando converso com os pais sobre os filhos especiais deles, lanço mão da minha própria experiência como mãe e me coloco no lugar deles”, conta Priscila.

Priscila percebeu que a filha era um pouco diferente quando notou que a menina não conseguia estabelecer um diálogo com as pessoas, mas cantava músicas inteiras. Foi quando começaram as idas a médicos e os muitos exames. Atualmente, a menina já consegue fazer perguntas do interesse dela, dança, canta e brinca com bonecas. “O importante é estabelecer uma rotina para as crianças e para isso é necessário ser bastante organizado, para que elas realmente aprendam a ser independentes”, explica.

“A minha grande meta e de meu marido é preparar a Clarice, cada vez mais, para ser uma menina independente. Como ela começou a ler e escrever bem cedo, isso nos facilita no desenvolvimento dela, com a apresentação de figuras e outros recursos visuais. Queremos que ela seja bem segura para quando não mais estivermos perto dela. A minha missão é essa, a de deixar minha filha em segurança para o futuro”, diz Priscila, emocionada.

“Mãe é tudo igual, só muda de endereço”, ensina o ditado popular. Mas no caso de mães de crianças especiais, o “ser diferente” é apenas o diferencial a mais.

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