Ophir Loyola aumenta captação de córneas para transplantes

Em menos de dois meses do novo fluxo em uso, o Ophir Loyola obteve o número de doações superiores aos 60 dias anteriores. (Foto: ASCOM HOL)

Em todo Pará, 857 pessoas aguardam na fila de espera por um transplante de córnea. Mas, a cada dia, o número de captações do tecido cresce e aumenta a esperança de quem espera por uma doação para voltar a enxergar, com um projeto desenvolvido pelo Banco de Olhos no Hospital Ophir Loyola. O serviço é o único na rede estadual que atua no recolhimento, avaliação, preservação e destinação de córneas em consonância com a Central de Transplante da Secretaria Estadual de Saúde (Sespa).

A responsável técnica do Banco de Olhos, Natércia Pinto Jeha, explica que a quantidade de doações de córnea estava cada vez menor comparada aos anos anteriores. Estabeleceu-se, então, um novo fluxo de captação de doadores dentro do hospital, mais ágil, vinculado às clínicas de internação e Centro de Terapia Intensiva. Agora qualquer membro das equipes assistenciais pode acionar o Banco de Olhos após um falecimento.

Segundo Natércia, após a confirmação do óbito, de imediato a equipe do Banco de Olhos se dirige ao local para fazer a avaliação do prontuário e triagem. “Após esse primeiro contato, acionamos a Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) para fazer a abordagem da família e, em caso de aceitação, o Banco de Olhos faz a remoção do globo ocular, avalia as córneas, preserva os tecidos e coleta o sangue para pesquisa de HIV, Hepatite B e C e vírus HTLV para disponibilizá-las para o transplante”, detalha.

Em menos de dois meses do novo fluxo em uso, o Ophir Loyola obteve o número de doações superiores aos 60 dias anteriores. Desde a implantação do projeto, 136 notificações foram realizadas. Até 4 de junho, das 53 doações de córneas realizadas no Pará, 27 foram realizadas no HOL, mais da metade do total, evidenciando a eficiência do sistema interno de captação.

A perda da visão afeta não só a percepção do mundo, mas a locomoção, a autoimagem e a interação social dos deficientes visuais. “O transplante muda a vida das pessoas, é um ato de amor que acalenta o coração no momento de dor e se esse fluxo continuar, existe a perspectiva de zerar a fila de espera em breve”, acredita Natércia Jeha.

De volta à vida normal

Aos 18 anos, Maurício Cunha começou a perder a visão. Ia ao oftalmologista, trocava de óculos, nada resolvia. Somente aos 23 anos recebeu o diagnóstico do ceratocone, uma doença ocular que deixa a córnea com o formato semelhante a um cone e provoca a percepção de imagens borradas e distorcidas. É a principal indicação de transplante de córnea em pacientes jovens no Pará.

Durante sete anos, Maurício, que hoje tem 34, usou uma lente de contato específica para melhorar a visibilidade, mas após algum tempo, a lente já não se ajustava à córnea e caía. O médico dele à época informou que nem mesmo o implante de uma órtese ocular (Anel de Ferrara) seria possível, já que ele possuía um risco na córnea.

“As coisas não tinham mais cores, as imagens eram borradas. Um dia não consegui mais me locomover sozinho, nem fazer as pequenas tarefas de casa, só identificava as pessoas pela voz, fiquei dependente de outras pessoas e então entrei para a fila de espera por um transplante”, conta.

Em 2016, Maurício foi acionado pelo Hospital Ophir Loyola para a realização do transplante, contudo a hipertensão arterial impediu o procedimento, levando-o novamente para a fila. No início de 2017, com a pressão controlada e demais exames aptos, recebeu o novo tecido. “Minha qualidade de vida mudou bastante, sei o quanto dói a perda de um ente querido, mas a doação deixa um legado de solidariedade que devolve a alegria à vida de alguém”, enfatiza.

Doação

Segundo a Organização Mundial de Saúde, no Brasil há 1,1 milhão de cegos, o que corresponde a 0,6% da população estimada, e cerca de quatro milhões de deficientes visuais sérios, porém entre 60% e 75% destes casos de cegueira e baixa visão seriam evitáveis e/ou curáveis. As doenças, traumas e infecções oculares estão entre as principais causas da cegueira.

A córnea é um tecido transparente localizado na frente do globo ocular, pode ser comparada ao “vidro de um relógio”. A autorização da retirada dos tecidos cabe aos familiares, até seis horas após o óbito. Na ausência dos parentes de primeiro grau, os de segundo grau podem autorizar a doação.

Qualquer pessoa, na faixa etária de dois a 70 anos de idade, pode doar as córneas para o Banco de Olhos do HOL. Até duas pessoas são beneficiadas e podem voltar a enxergar. Existem critérios específicos de exclusão de doação como, por exemplo, pacientes com tumores localizados no globo ocular, portadores de leucemia, de linfoma, de mieloma múltiplo etc.

A fila é única, por ordem de inscrição, independente de o paciente ser do convênio, particular ou do SUS, porém a legislação brasileira, por meio da portaria do Ministério da Saúde nº 2600 de 21/10/2009, Artigo 107, prioriza alguns casos, como perfuração do globo ocular, iminência de perfuração da córnea, úlcera de córnea sem resposta ao tratamento clínico, receptores com idade inferior a sete anos com opacidade de córnea bilateral e rejeição até 90 dias após o transplante.

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