Deputados ouvem diretor de instituto contratado pela Hydro Alunorte e cineasta que a denunciou danos

(Foto: Nenhum)

Os deputados da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apura danos ambientais em Barcarena ouviram, em depoimento na 16ª edição de oitivas, quatro diferentes visões a respeito dos danos ambientais investigados e que incidem na bacia hidrográfica do rio Pará, a partir do acidente ocorrido em fevereiro passado, nas dependências da Hydro Alunorte, atestados por laudos do Instituto Evandro Chagas.

Os depoimentos ocorreram no auditório João Batista, com transmissão ao vivo pela Rádio e TV Alepa. Foram ouvidos: Paulo Feitosa, morador de Barcarena e membro do Instituto Socioambiental do município que luta em defesa das comunidades impactadas por acidentes ambientais; o diretor geral do Instituto Peabiru, João Carlos de Souza Meireles Filho, que na convocação anterior não havia comparecido e justificado. O Peabiru presta serviços à empresa Hydro Alunorte desenvolvendo projetos nas comunidades atingidas pelos desastres ambientais. Também foram ouvidos o advogado Mário Hesket, constituído por várias comunidades urbanas de Barcarena para ingressar na justiça, solicitando ressarcimentos por danos que os impactos ambientais causaram a estes moradores; e a jornalista Priscila Brasil, autora de um documentário sobre as chuvas ocorridas em Barcarena nos dias 16 e 17 de fevereiro passado.

Para o deputado Coronel Neil, presidente da CPI, os depoimentos colhidos acrescentaram informações novas ao acervo.

O Peabiru, nos últimos dez anos, foi contratado por empresas envolvidas em inquéritos e diversas denúncias de prática de danos ambientais. Teve 15 contratos semelhantes ao prestado a empresa norueguesa em Barcarena.

O relator, deputado Celso Sabino, falou sobre a impressão do depoimento de João Carlos de Souza Meireles Filho. “Não conseguimos decifrar a que se destinou ou o que vem se destinando os recursos no valor de quase dois milhões e 800 mil reais do contrato da empresa Hydro com o Instituto Peabiru para participar de reuniões com as comunidades do entorno da empresa”, disse. Para o relator, o depoimento do diretor, além de não esclarecer, está em desacordo com o que disseram diversas lideranças comunitárias de Barcarena ouvidas pelos deputados.

Para o deputado Carlos Bordalo, a relação do Instituto Peabiru com a Hydro só demonstra que as empresas cumprem um papel de amortecer os conflitos sociais. “São contratadas a um preço milionário para desmobilizar as reações da população e da comunidade, impedindo a consciência dos problemas, dificultando o pagamento de indenizações e outras movimentações na justiça”, acrescentou.

A cineasta Priscila Brasil apresentou as imagens colhidas por ela no entorno da empresa Hydro Alunorte, dias depois do incidente de fevereiro, feitas nas imediações da empresa. Brasil está colhendo imagens para a produção de um vídeo sobre danos e riscos ambientais “Amazônia Ocupada”. Ao olhar as imagens, Priscila se disse surpresa com que viu e denunciou. “Quando a gente encontrou naquela praia os rejeitos sendo jogados, uma água vermelha, isso foi muito assustador inicialmente, então, deve ter alguma coisa grave e que afeta uma comunidade inteira”, explicou.  Uma cena chamou atenção dos deputados nas imagens mostradas: águas avermelhadas sendo despejadas, sendo que vários tubos isolados e distantes um dos outros aparecerem como sendo uma tentativa de construção de um canal de escoamento abandonado.

Riscos - Para a jornalista e cineasta Priscila Brasil, devido à queda dos preços das commodities dos minérios nos últimos dez anos, as empresas tiveram que aumentar a produção pra compensar a queda do preço, colocando em permanente risco vários pontos da Amazônia. “As empresas ficaram cada vez mais afastadas com qualquer preocupação e responsabilidade social. Para as empresas, o momento é de tirar o que eles consideram despesas, enxugar todos os custos, assumindo riscos, às vezes, nem tão bem calculados, menosprezando a relação com a comunidade. A relação ou respeito à comunidade é considerada despesa”, interpretou.

O deputado Carlos Bordalo considera que na medida em que essas empresas tem a necessidade de compartilhar dividendos com seus acionistas, de compensar perdas do preço do mercado internacional do alumínio e/ou de outros minérios, menos responsáveis são. “Isto as leva ou pode levar a práticas produtivas cada vez menos responsáveis, aumentando demasiadamente o volume de produção, sem isto está devidamente acompanhado dos cuidados para impedir maiores impactos na vida dos moradores”, avalia Bordalo.

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