Receita médica para paciente analfabeto viraliza nas redes sociais

Com um estojo plástico cheio de fitas adesivas estampadas, criatividade e um sentimento enorme de ajudar ao próximo, a estudante de medicina Manuela Lemos e a médica Rayssa Miranda adotaram o “Método da Fitinha” para orientar os usuários com dificuldades para entendimento das receitas médicas que frequentam a Estratégia Saúde da Família do bairro da Condor, em Belém. A foto de uma dessas receitas repercutiu nas redes sociais durante nesta quarta-feira, 05.

Publicada pela estudante Gabriela Lemos, irmã de Manuela, ainda na terça, 04, por volta das 14h, a postagem atingiu, em menos de 24h, a marca de 3,5 milhões de visualizações no Twitter, mais de 100 mil curtidas e compartilhamentos no Facebook e inúmeras mensagens elogiando a atitude da estudante e da médica. A publicação também movimentou a imprensa local e nacional e abriu o debate para o atendimento humanizado dentro do serviço de saúde.

De acordo com Manuela, 21 anos, estudante do 5º ano da faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará (UFPA), a iniciativa faz parte da rotina da equipe, que já tentou diversas formas de orientar os pacientes, como desenhos, símbolos e cores. Mas esta foi a primeira vez que escreveram no receituário, no estilo de legenda para as fitas coladas nas caixas de medicamentos. No caso do paciente das fitinhas, um homem diabético e hipertenso, com idade entre 50 e 60 anos, a equipe identificou que ele não seguia o tratamento proposto e todas as semanas voltava à unidade de saúde para buscar orientação por ser analfabeto e não memorizar as explicações médicas.

“Perguntei se ele sabia ver o horário e ele disse que sim e, então, conversei com a dra. Rayssa para escrevermos no receituário como legenda para as fitinhas das caixas dele. Ela autorizou e fiz. Expliquei tudo direitinho e, pedi para ele repetir e constatamos que de fato ele tinha entendido. Agora estamos esperando ele retornar na unidade para sabermos se ele conseguiu melhorar o controle da diabetes e da hipertensão”, conta a estudante.

Manuela, de início ficou surpresa com a repercussão nas redes sociais, mas enxergou a oportunidade para que a ideia seja expandida e usada por outros profissionais de saúde a fim de facilitar o entendimento de outros usuários. “Não esperava de jeito nenhum. Fiz a foto para ficar de modelo e mandei para minha irmã, que é vestibulanda de medicina e se interessa pelo assunto também. Ela postou no Twitter dela e eu nunca imaginei que fosse ter toda essa repercussão. A gente fez a receita com a intenção de ajudar o paciente e só de ter ajudado já é suficientemente gratificante. É muito positivo”, diz a estudante que viu seu número de seguidores aumentar nas redes sociais e acumula elogios de amigos, professores e pessoas que conheceram o trabalho após a repercussão na internet. Após a formatura, Manuela quer atuar em clínica médica e se especializar em endocrinologia.

Preceptora de Manuela, a médica Rayssa Miranda, formada há três anos em medicina, sempre atuou em unidades básicas de saúde por adorar a medicina de família e o contato com os pacientes. Desde novembro de 2017 ela atua na ESF Condor. “Com os meus pacientes eu me envolvo muito e sempre procuro resolver os problemas deles. A gente tem muitos pacientes que tem dificuldade em aderir ao tratamento, que moram só, sem apoio da família e me incomodava o fato de ver essas pessoas cada vez piores. Então, resolvemos buscar estratégias para que eles pudessem entender o tratamento e seguir o mesmo. Adoro coisas de papelaria e vi esse estojo de fita em um site de uma loja de departamentos e comprei para uso no consultório”, diz.

As estampas das fitas são usadas para que o paciente possa fazer a associação com horário, atividades e períodos do dia. A fita prata com estrela é usada para indicar os medicamentos do início da manhã. Já a fita com frutas é para lembrar os que devem ser tomados após as refeições. As fitas azul e amarelo lembram o dia e a noite, por exemplo. “A gente faz o paciente repetir várias vezes para comprovar que tinha atendido. Eu sei que vários profissionais da saúde fazem isso para os seus pacientes, por isso nunca esperei que essa ação fosse ter uma repercussão tão grande e tão rápida. É um reconhecimento que é bom para a unidade de saúde, para os profissionais e, sobretudo, para os usuários”, destaca emocionada a médica que diz que não está conseguindo acompanhar as suas redes sociais devido ao grande número de notificações.

O paciente dono da receita famosa não terá a identidade revelada pela Secretaria Municipal de Saúde, mas receberá todo o apoio necessário da Prefeitura de Belém para que entre em uma turma de alfabetização para jovens e adultos.

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