Prefeitura investe em medidas para a redução da infecção por doença de Chagas pelo açaí

Dores musculares repentinas e febre alta por vários dias foram os sinais de alerta para um servidor público de 56 anos, que prefere não ser identificado, procurar ajuda médica em junho passado. Ele foi diagnosticado com a doença de Chagas pela equipe da Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) e teve seu caso associado à transmissão oral pelo consumo de açaí. “Ao receber a notícia, fiquei impactado. Sou consumidor nato de açaí, filho de cametaense. Sempre ganhei açaí pelos lugares que passei e não observava a estrutura dos locais. Tomava açaí de qualquer lugar”, conta.

Após o diagnóstico, o servidor público iniciou imediatamente o tratamento com a doença ainda na fase aguda, quando as chances de cura são maiores. Passou a ser acompanhado pela equipe da Sesma e iniciou uma bateria de exames para avaliação do coração e de outras partes do corpo que poderiam ter sido afetadas pela doença. A família dele também passou por exames e segue sendo monitorada pelos profissionais da Sesma.

“A gente sabe que o parasita procura o músculo do coração. As informações que recebi me ajudaram a passar por tudo isso e ficar mais tranquilo. Importante saber que fui diagnosticado na fase aguda. Agora estou de licença do trabalho por quatro meses e com todo apoio da minha família”, afirma.

Gustavo Cruz, técnico responsável pela Vigilância da Doença de Chagas na Sesma, explica que em Belém todos os casos agudos de doença de Chagas estão relacionados à transmissão oral, através do consumo de alimentos, como o açaí, contaminados pelo parasita Trypanossoma cruzi, agente causador da doença de Chagas que está presente nas fezes do barbeiro, inseto transmissor da doença. “Nos últimos três anos, temos registrado doença de Chagas durante ano inteiro. Porém, durante a safra do açaí, de junho a dezembro, temos um aumento significativo dos casos”, informa. Somente em 2018, 23 pessoas já foram confirmadas com a doença em Belém, sendo cinco por contaminação em outros municípios.

Para controle da doença, o município possui ações integradas da Vigilância Epidemiológica, Entomológica e Sanitária e da Educação em Saúde, bem como treinamento para os profissionais de saúde pública e privada. Paralelamente, se implantou o selo de qualidade “Açaí Bom”, uma iniciativa que visa destacar os pontos de venda de açaí que seguem o Decreto Estadual 326/12 e fazem a técnica do branqueamento, que consiste em mergulhar o fruto em água a 80°C por dez segundos e logo em seguida em água fria, antes do processamento na batedeira (despolpamento).

“O alimento pode estar contaminado com as fezes do barbeiro ou com o próprio barbeiro infectado quando não é devidamente higienizado. No caso do açaí, se não é feito o branqueamento a pessoa que ingere corre o risco de ser contaminada. Por isso, é importante comprar o açaí nos pontos que façam o procedimento correto, que tenham o selo da Prefeitura de Belém, o que significa que os manipuladores já passaram por treinamento e fiscalização. O açaí pode ser um pouco mais caro nesses pontos, pois tem o investimento em equipamento e treinamento, mas vale a pena pela segurança no consumo”, destaca Gustavo.

Quanto antes a doença for descoberta, maiores são as chances de cura, visto que na fase aguda a vigilância epidemiológica pode agir com medidas preventivas. Na fase crônica, a doença já causa problemas no coração, no intestino e no esôfago, que ficam em tamanho maior e impedem o funcionamento adequado do organismo.

O principal sintoma da doença de Chagas aguda é a febre por sete dias ou mais. “Antes disso é difícil suspeitar da doença de Chagas, pois a febre está presente em várias doenças, em viroses e infecções. Podemos ter, também, o inchaço do rosto e membros inferiores, aumento do fígado e baço, dor de cabeça, fraqueza, palpitações e astenia (perda de força física)”, explica Gustavo.

O técnico esclarece ainda que como a infecção se dá através do alimento, que costuma ser compartilhado pelos membros da família. O acompanhamento é estendido a todos os familiares do caso confirmado, para que sejam detectados possíveis casos sem sintomas. “É importante ressaltar que a doença de Chagas não é transmissível de pessoa para pessoa, não há necessidade de isolamento”, acrescenta Gustavo.

Laboratórios - Pessoas com o quadro suspeito para doença de Chagas podem buscar atendimento em qualquer unidade de saúde do município. Belém dispõe de 18 laboratórios com profissionais capacitados para diagnóstico parasitológico da doença de Chagas aguda e da malária, que estão distribuídos por todos os distritos sanitários, sendo que o laboratório da Unidade da Marambaia funciona em regime de plantão, 24h por dia, todos os dias do ano. A medicação para o tratamento é específica e disponibilizada gratuitamente pelo Ministério da Saúde, e distribuída pela Divisão de Vigilância Epidemiológica.

O servidor público em tratamento na Sesma diz que o açaí continua na mesa da família, mas agora há o cuidado com o local de aquisição. “Eu só não faço jantar, pois não posso mais. Mas no almoço é garantido o açaí. Não tenho medo de não de consumir o açaí, mas agora estou escolhendo melhor os pontos que fazem o branqueamento e estou mais atento com a manipulação do açaí. Mas parar de tomar, nem pensar!”, afirma.

 

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