A corda do Círio: fio condutor de fé

Todos os anos, a organização da festividade de Nazaré recebe uma corda nova que vai ser usada na procissão pelos promesseiros no Círio de Nazaré. A deste ano chegou a Belém no início de setembro e está guardada na Estação dos Carros, no Arraial de Nazaré até as vésperas da festa, até a transladação e agrande procissão, no próximo dia 8 de outubro.

O ícone da maior festa católica do Pará foi produzido em Santa Catarina e foi transportado até a capital por uma empresa que doou o serviço. A corda, que tem cada centímetro disputado por milhares de pessoas, tem 800 metros de comprimento, 50 milímetros de diâmetro e será dividido em dois pedaços de 400 metros, sendo um para a romaria da Trasladação, na noite que antecede o Círio, e outro para a grande procissão do segundo domingo de outubro.

Vários servidores da Assembleia Legislativa se juntam a essa multidão para reverenciar em sacrifício a padroeira. Rui Nelson de Parijós Jr., que trabalha na Seção de Portaria e Zeladoria, é um desses devotos que acompanham a procissão atados à fé em Nossa Senhora de Nazaré. “Eu sempre acompanhei o Círio caminhando na frente da procissão, até que vi a chegada da berlinda na Basílica. A imagem dos promesseiros da corda reverenciando a santa depois de tanto sacrifício me emocionou. No ano seguinte, eu já estava acompanhando na corda também”, lembra.

Ele tinha 25 anos e durante os dez anos seguintes, ir na corda era uma opção. Aos 35 anos, Rui fez a promessa de continuar na corda do Círio enquanto pudesse, pela saúde da filha. Desde então, já são 27 anos nesta ca,minhada de fé. “É muito diferente acompanhar a procissão e ir na corda. Me sinto como se estivesse próximo à Santa, acompanhando, fazendo sacrifício em agradecimento a ela, por interceder por nós”, avalia Rui.

Para enfrentar a procissão em uma das formas mais difíceis, Rui se prepara. Começa a treinar corrida e outras atividades físicas um mês antes, para adquirir preparo físico. Ele também procura uma nutricionista que o orienta sobre uma dieta preparatória, “porque é muito calor e esforço, se não se preparar não aguenta”, diz. “Apenas um ano eu não consegui concluir todo o trajeto, porque meus pés ficaram machucados, sangrando muito, então soltei a corda próximo ao edifício Manoel Pinto da Silva”, lembra.

Os filhos de Rui vão acompanhando próximos, para dar apoio onde é possível. O servidor também participa ativamente da programação do Círio na Alepa. “Nossa procissão é pequena, não tem corda, mas eu ajudo a carregar a berlinda e dou todo apoio que posso na organização do evento”, afirma.

Outro servidor da Alepa que acompanhou o Círio na corda durante 22 anos é o Ruberval Gonçalves Andrade - mais conhecido como Rubão, da Inspetoria de Segurança. Criado em uma família católica, ele participa das atividades da paróquia de Santa Terezinha, no Jurunas, onde canta no coral da igreja.

“Cada ano na corda é uma emoção diferente. Tem vezes que é difícil”, avalia Rubão. Ele conta que vivenciou todas as mudanças feitas pela organização do Círio para manter a tradição da corda dos promesseiros. “O ano mais difícil foi quando aconteceu o incêndio da Casa Chamma. A procissão estava acontecendo”, lembra.

Hoje, a corda sai da Estação das Docas. “Quando saía da Igreja da Sé, logo no início da procissão, o sacrifício era maior, mas a emoção também. Principalmente quando a berlinda é atrelada à corda”, ressalta.

Rubão lamenta que há alguns anos não conseguem levar a corda até o final, porque ela é cortada antes. “Mas nós levamos o nosso pedaço até o final. Depois, mantenho a tradição de ficar com um pedacinho da corda atrás da porta de casa até o ano seguinte”.

MULTIDÃO – Segundo uma estimativa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese-PA), um dos símbolos principais da festa mariana, a corda do Círio de Nazaré vai ser puxada por cerca de seis, sete mil fiéis em 2017.

Como nos anos anteriores, o núcleo da cabeça vai medir 11 metros e será conduzida por cerca de 92 pessoas (por dentro do núcleo); no caso das cinco estações, cada uma terá seis metros e será levada por cerca de 50 promesseiros. Baseado nesse cálculo, o Dieese estima que 342 fiéis devem passar pelo núcleo da cabeça e nas cinco estações da corda.

Só para ter uma noção, as medições feitas pelo Dieese e Diretoria da Festa mostraram que só cabem 12 fiéis em média por metro linear de corda. Com isso, o número de promesseiros da corda em 400 metros pode atingir, no máximo, 4.800 promesseiros. Se juntar esse número de 342 promesseiros com os demais núcleos e cabeça, segundo o Dieese, ficará um total de 5.142 promesseiros na corda, incluindo estações e núcleo da cabeça.

Mas é preciso lembrar que durante o percurso do Círio, os promesseiros colocam mãos sobre mãos, muitos não conseguem concluir o trajeto e cedem lugar a outras pessoas, então o número de pessoas por metro pode ser bem maior do que o estimado, o total de fiéis no espaço pode chegar a mais de  7.500.

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CirioAlepa2017 Especial

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