Despedida

O Velho Comunista está no céu

A ampulheta do tempo verte os últimos grãos de agosto quando um cometa corisca no firmamento, e aterrissa de chofre no paraíso. Pilota-o um ilustre morador das quebradas do Uriboca, o André Costa Nunes, tido, havido e amado nesta vida finita – e decerto na outra que ele agora adentra...

Texto de Iran de Souza 

A ampulheta do tempo verte os últimos grãos de agosto quando um cometa corisca no firmamento, e aterrissa de chofre no paraíso. Pilota-o um ilustre morador das quebradas do Uriboca, o André Costa Nunes, tido, havido e amado nesta vida finita – e decerto na outra que ele agora adentra, e que será eterna – como o Velho Comunista.

          Ao transpor os umbrais celestes, o Andrezão modula o baixo-barítono com um pigarro, depois trombeteia no andar de cima uma daquelas exclamações que usava como vírgula aqui no de baixo, isto é, um palavrão.

          “Puta que o pariu, olha eu aqui no céu! Será que alguém pode dizer por que cargas d’água vim parar aqui?”

          Mal indaga como é que ele, ateu e materialista antes do primeiro cabelo branco, pousara no paraíso sem a menor turbulência, o Andrezão nota a presença de camaradas tão vermelhos quanto a sua pessoa no pavimento eterno; alguns, inclusive, ilustríssimos.

          Sãos e salvos, e a comungar com anjos e querubins, o Andrezão avista, por exemplo, patriarcas como Babeuf e Saint-Simon, Fourier e Owen, Proudhon e Feuerbach, Lassale e Bakunin; e pensa: se o céu tem lugar até para anarquistas, como uns e outros que vejo por aqui, é porque é democrático mesmo, cabe qualquer um.

          Ao dobrar a primeira esquina da cidade celestial, o Andrezão encontra ninguém mais, ninguém menos que o camarada Marx, cérebro-mor e redator-chefe do socialismo científico, com quem puxa conversa. Com a intransigência que lhe é peculiar como PhD e como radical de esquerda, Marx cofia a barba, assenta-a sobre a barriga proeminente e resmunga não haver sentido que até ele, logo ele que cunhara o axioma da religião como o ópio do povo e aclamara a autoconsciência humana como a única divindade, figure entre os eleitos de Deus.

          Eis que nesta hora outro camarada aproxima-se, um teutão alto, encorpado e jovial, e dá um abraço acochado no Andrezão como se o conhecesse desde a batalha do riozinho do Anfrísio, nas brenhas do Xingu.

          “Olha, André, a modéstia nunca foi o forte do companheiro Marx, mas desta vez o meu velho amigo está sendo humilde, viu? O próprio Senhor já explicou o porquê de ele estar aqui. Uma hora dessas eu te conto”, promete.

          Palavra de Engels, Friedrich Engels.

          Ao dar-se conta de que os comunistas não são um nem dois no paraíso, mas legião, o Andrezão fica à vontade. No mais, Engels explica-lhe que no céu não existe família. Nem Estado. Nem propriedade privada. Nem capitalistas nem proletários. Nem opressores nem oprimidos. Nem concentração de riqueza nem miséria. Todos iguais. Para sempre.

          “O comunismo com que tanto sonhamos lá embaixo, na terra, só existe aqui em cima, no céu”, corrobora Lenin, aprochegando-se, os olhos argutos, a careca lustrosa.

          “Tá quase bom. Mas seria ainda melhor se nós, os eleitos, tivéssemos assento no CCC, o Comitê Central do Céu; só que ele é restrito ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo e aos arcanjos”, ironiza Marx, que levou para a vida eterna a velha mania terrena de criar polêmica.

          “O que é isso, companheiro? Deixe de filigranas. Pense que os querubins e os serafins também não têm assento no CCC. Não vamos entrar em querelas no céu. Veja o que aconteceu com Lúcifer. O que importa é que aqui vivemos felizes e em pé de igualdade. Não foi por isso que lutamos a vida inteira?”, pondera um camarada meio baixote e com sotaque dos pampas. É Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança; ao seu lado, aquiescente ao que ele diz, olhos iridescentes e sedutores, uma mulher tão linda que houvera logo de ser anjo: Olga Benário.

          Agora pense você, caro leitor: encontrar os próprios ídolos no paraíso e privar da companhia deles! Sortudo este Andrezão, num é? Contudo, se o papo dos comunas está ótimo, interessante mesmo, para ele já não é suficiente. Porque uma vez que ascendeu aos céus involuntariamente, o André, que sempre foi um cara destemido, agora quer parlar com o próprio Deus. Frente a frente, pá de lá, pá de cá, entende? Pois é. Avisam-lhe, porém, os comunas e os não comunas, os católicos romanos e os ortodoxos, os judeus e os muçulmanos, os batistas e os umbandistas, que falar com Javé demanda tempo e perseverança; ninguém aporta no paraíso na primeira hora e já na segunda tem audiência com Ele.

          Mas o Andrezão é tinhoso; mesmo no céu, intui o caminho das pedras, e sai à procura de Nossa Senhora. Encontra-a no resplendor da mais bela morada do paraíso, onde as portas da graça estão para sempre abertas a crédulos e incrédulos, o verbo ilumina o tempo e a eternidade, o amor e a bondade alimentam os corações alados.

          “Regozija-me que tenhas vindo a mim, meu filho”, recebe-o amorosamente a Mãe de Deus, “embora eu tenha estranhado teres dito a um jornalista em Belém do Pará que eras ateu e ao mesmo tempo devoto da Virgem de Nazaré, portanto meu devoto.”

          “Mãezinha, a Senhora há de entender que por razões antropológicas e filosóficas uma fé como a minha manifestava-se mais na imanência do que na transcendência. E mais não preciso dizer porque sei que em sua imensa bondade a Senhora me perdoará qualquer vacilo”, sofisma Andrezão.

          “É claro que eu o entendo, e mais ainda o perdoo, meu filho”.

          Dito isso, Nossa Senhora dá-lhe o braço e o conduz ao Pai.

          Ao prostrar-se diante de Javé, sabendo que Ele não tem tempo para delongas nem papos molhados como os amigos e clientes que recebia em seu restaurante Terra do Meio, o Andrezão vai direto ao ponto.

          “Oh, Senhor, preciso entender por que salvastes alguém, como eu, que nunca acreditou em Vós. É só o que vos peço”, implora.

          “É simples, meu filho”, começa Javé, e sua voz nem é de trovão como especula-se por aí, mas um dulcíssimo contratenor que logo abranda o coração e a mente do ouvinte. “Salvei a ti – e a tantos comunistas, embora não aos deliberadamente maus e assassinos como Stalin e Mao Tsé – porque tu me amaste sobre todas as coisas.”

          “Eu, senhor? Referi-vos, de fato, à minha pessoa? Eu era um ateu”, alarma-se Andrezão, a velha chama de incréu ainda morna no peito.

          “Sim, tu; pois penso que te tornaste comunista por amor aos oprimidos, aos pobres, aos pequeninos, aos famintos, aos sem-terra e aos sem-teto, aos deserdados da terra, enfim. E se tu não te conformaste com as injustiças dos homens, com a riqueza de poucos e a pobreza de muitos, tu amaste o teu próximo, e amando-o tu também me amaste. Por isso eu te salvei. Por isso viverás comigo no paraíso.”

          A palavra do Senhor turva em lágrimas os olhos de esmeralda do Andrezão, como o Xingu depois de Belo Monte. Ele, o Velho Comunista, um dos escolhidos de Deus – quem diria, hein? Quantos papas, padres, pastores, profetas e fiéis de todos os credos, que amam a Deus da boca para fora e odeiam o próximo do coração para dentro, não tiveram e não terão a mesma sorte – quantos?

          Andrezão recompõe-se para agradecer a Deus pela salvação inusitada de sua alma quando Javé lhe faz uma revelação não menos surpreendente.

          “Não posso negar-te, André, que faltava um ponto, um único pontinho na prova final de tua vida para que alcançasses a nota máxima que te abriria as portas do céu”, diz-lhe o Altíssimo.

          “E como foi que eu me livrei de ser defenestrado para o inferno ou, no mínimo, para o purgatório, Santo Deus?”, estremece o Velho Comunista.

          “Com os livros que escreveste, André. Pois bem-aventurados são aqueles que escrevem livros, e acendem, com eles, fachos de luz contra a estupidez e o obscurantismo dos homens.”

          Evoé, Andrezão! Mande aí do céu uns causos rabiscados de próprio punho, vá mandando.

 

Iran de Souza é jornalista.  

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