O tempo não para

Palestras colocam o dedo nas feridas da Construção 4.0 e propõem mudanças já

Além do investimento em tecnologia, é preciso transformar o ambiente de negócios e qualificar os trabalhadores para novas especialidades

De uma coisa podem ficar certos os engenheiros, arquitetos, trabalhadores e empreendedores da construção civil que participam da XIV Feira da Indústria Paraense. Eles não são o patinho feio da 4ª revolução industrial, como muita gente pensa. A não ser que queiram ser. As perspectivas do setor diante da enxurrada de inovações que se conectam para caracterizar a Indústria 4.0 foram abordadas, com profundidade em vários eventos incluídos na programação da XVI Fipa. Na sexta-feira à noite o tema esteve em pauta e permanece neste sábado (18), último dia do encontro.  

Não há dúvida de que o conjunto de inovações é melhor percebido, por exemplo, no setor automobilístico, onde algumas etapas da fabricação de carros são totalmente automatizadas, ou no setor de extração mineral, que já se utiliza de inteligência artificial no controle de processos. Mesmo assim, embora de forma menos acelerada, a construção civil também percebe os benefícios dessa nova onda e se propõe a discutir riscos e oportunidades.

O ponto de partida desse debate é a constatação de que a convergência de tecnologias, característica da Indústria 4.0 e que inclui  automação, informação em nuvem, robótica, análise de dados e internet das coisas, é um caminho inevitável para a redução de custos, o aumento da segurança no trabalho, a elevação da qualidade e a conquista de maior produtividade, desafios sempre presentes na missão de construir.

Em alguns países, já é comum o uso de drones para monitoramento das obras, caminhões sem motorista em áreas de mineração e robôs de demolição. Por aqui, já se fala na adoção do BIM (Building Information Modeling ou Modelagem da Informação da Construção), na manufatura aditiva (produtos feitos com impressoras 3D), na realidade aumentada e na análise de big data.
O que ainda trava a assimilação da nova onda pela construção civil é uma crise de identidade, pois é um setor que avoca o perfil de indústria mas ainda se comporta como um artesão. 

CADEIA PRODUTIVA - "O medo da mudança é real. Muita gente deixa de correr riscos, mesmo diante de uma realidade que vai punir quem não mudar os paradigmas, e prefere manter rotinas consagradas, e antigas, que teoricamente estão dando resultado. mas até quando?", indaga Flaviana Aoki, sócia da Formatus Engenharia, uma das palestrantes das rodas de debates promovidas pelo Sebrae na Fipa.
"A mudança é inevitável e inadiável e deve ser colaborativa. O setor tem de pensar na cadeia da construção civil e não apenas em um gomo", adverte o engenheiro civil Sandro Barbosa, coordenador da Amazônia Chapter.  "Ninguém pode mais trabalhar isoladamente", corrobora Márcio Viana, também engenheiro, que dividiu com Sandro uma apresentação dinâmica sobre o enfrentamento dos desafios de pequenas e grandes empresas. 

“A revolução digital está impactando muito outras indústrias porque elas já são uma indústria. O mesmo não podemos dizer da construção civil de hoje, que ainda é apegada a um amontoado de atividades artesanais”, concorda o engenheiro Luiz Henrique Ceotto em recente entrevista ao site Buildin.

A Consultoria McKinsey, a pedido desse mesmo site, listou algumas tendências que poderão, enfim, levar as empresas à Construção 4.0: a  geolocalização de alta definição, para evitar discrepâncias entre as condições reais do solo e o escopo dos projetos; o uso do BIM 5 D, que permite  a integração em meio digital das informações sobre planejamento, custos e cronograma da construção; a internet das coisas, que aproxima o mundo físico do mundo virtual; e a impressão em 3D de sobressalentes.

Os engenheiros atentos à nova era lamentam que o processo de construir ainda seja praticamente todo artesanal, o que o torna dependente, excessivamente, de habilidades humanas. Os edifícios são construídos em canteiros de obras. A Indústria 4.0 permite  produzi-los em fábricas para em seguida montá-los na obra. 

MOLDES EM 5D - A sala sempre lotada do espaço destinado ao Summit Sebrae, na Feira da Indústria, dá uma ideia exata do crescente interesse sobre os impactos da nova revolução na construção civil. Uma das maiores audiências se deu na apresentação da tecnologia BIM, que propõe a modelagem da informação da construção utilizando a tecnologia para fazer moldes em terceira dimensão, muito mais práticos e facilmente interpretáveis, comparados aos desenhos planificados. Alguns especialistas já preveem, no futuro, o BIM em 5D, que além da representação digital, custos e planejamento de etapas da construção, também poderão inserir informações geográficas, acústicas e térmicas de uma obra.

Na mesma sala, neste sábado, a engenheira civil Flaviana Aoki trata de outro tema que ainda amarra ao passado os ambientes da construção civil: a presença da mulher em um ambiente predominantemente frequentado por homens. "Isso está mudando. Mudar a mentalidade na questão do gênero também é fundamental, tanto quanto a tecnologia, para elevar a construção civil a novos patamares de qualidade e competitividade", defende.

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