Conflito na ponte






Foto: Lúcio Flávio Pinto
A morte de garimpeiros, pela Polícia Militar, em 1987, em Marabá, é um desses casos que marcam, de forma indelével, governos de qualquer partido. Resgatado pelo jornalista Paulo Roberto Ferreira no livro que ele lança neste dia 22, está no mesmo padrão do massacre de Eldorado de Carajás (17 de abril de 1996), do assassinato da Irmã Dorothy (12 de fevereiro de 2005), da chacina de Pau D’arco (24 de maio de 2017). Fiquemos só com esses e já será bastante como história típica de fronteira, que infelizmente tem marcado a Amazônia.
Os três episódios são sempre lembrados, mas o caso dos garimpeiros de Serra Pelada, que protestavam sobre a ponte rodoferroviária do Tocantins, em Marabá, onde foram massacrados pela Polícia Militar, sumiu da memória da imprensa e das instituições; inclusive da esquerda, embora tenha também lavado de sangue aquele pedaço do sudeste paraense, onde se sucedem muitos conflitos. Diferente de Eldorado e do Caso Dorothy, não se tem notícia de que alguém tenha sido acusado e processado, muito menos punido, no caso dos garimpeiros. E o autor do livro confirma que nem o Ministério Público tem em seus arquivos algo minimamente parecido com um inquérito. Restam então questionamentos aparentemente sem respostas: Porque o Caso da Ponte caiu no esquecimento? Por que não foi feita uma investigação adequada e profunda? Quem eram aqueles homens e mulheres de dentro da cava de Serra Pelada? Que forças do governo impeliram para o garimpo o “Serviço”? Onde estão os políticos que nasceram no embalo da lama dentro da bateia de garimpeiro?
O livro de Paulo Roberto dá algumas pistas. Vai ser empolgante ler essa obra. Ele era repórter de O Liberal quando o caso ocorreu, em 29 de dezembro de 1987, mas há muitos anos cobria os conflitos em torno de Serra Pelada. Tudo agora resgatado, como história indispensável para se compreender aqueles tempos finais da ditadura, no livro “Encurralados na ponte: o massacre dos garimpeiros de Serra Pelada”.
O novo livro do jornalista e escritor é fruto da memória confortável de quem esteve no palco dos acontecimentos, com olhar de repórter sensível à realidade perturbadora. A história foi enriquecida com inúmeras entrevistas e ampla pesquisa documental no Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional, Câmara Federal, Fundação Casa da Cultura de Marabá e nos acervos digitais da imprensa.
A obra trás de volta, recheando de minúcias, o episódio que se inscreve no cenário da violência que tem manchado de sangue tanto as cidades quanto o meio rural da Amazônia, notadamente do Pará, por décadas. Na antevéspera do Ano Novo, há 32 anos, as forças policiais do Estado do Pará abriram fogo, sob ordem do governador Hélio Gueiros, contra mais de 300 pessoas que estavam na ponte rodoferroviária de Marabá, por onde transita o minério de ferro da Vale rumo a Itaqui, no Maranhão. Eram garimpeiros, mulheres, jovens e crianças.
O cenário era explosivo, “crônica de morte anunciada”, monitorada pelo Serviço Nacional de Informação (SNI), vigiada pela Polícia Federal. Serra Pelada, por muitas razões, era apelidada de “Panela de pressão”. Havia uma negociação pontual em curso para que a ponte fosse desocupada, mas a negociação foi interrompida com a ação da polícia. Conta o jornalista, os garimpeiros negociavam a manutenção da extração manual do ouro de Serra Pelada e exigiam melhores condições de trabalho, porém foram fuzilados pela Polícia Militar. Tentando escapar do tiroteio, muitos saltaram de 76 metros de altura no Rio Tocantins; as águas estavam baixas e as pedras do leito do rio expostas. Os saltos foram mortais. E não foi o epílogo da polêmica história de Serra Pelada.
Foi o pior caso de enfrentamento entre trabalhadores e a polícia, naquela década. O número dos mortos nunca foi oficialmente confirmado. O governo divulgou duas mortes, depois nove. No entanto, existem registros de que desapareceram entre 50 a 79 pessoas.
O livro-reportagem, editado pela Paka-Tatu, traz novos e antigos depoimentos de pessoas que estiveram na cena da repressão policial; narra a corrida do ouro e o controle militar do garimpo de Serra Pelada, que chegou abrigar mais de 80 mil homens, a partir de 1980. A obra faz uma incursão, mais de trinta anos depois, pela história do famoso garimpo, que se confunde hoje com a do município de Curionópolis.
O garimpo é, atualmente, uma lagoa com mais de 200 metros de profundidade, onde ainda haveria muito ouro a estimular projetos de extração mecanizada, que não se concretizam. Embora com uma população que não chega perto do “formigueiro humano”, cujas imagens varreram o mundo, nos anos 1980, o hoje Distrito de Serra Pelada continua pobre – sem preconceito ou exagero, miserável - apesar de ter produzido, oficialmente, mais de 40 toneladas de ouro, que moveram os sonhos de enriquecimento de milhares de brasileiros que se atiraram numa verdadeira “corrida do ouro”.
Se a riqueza extraída daquele buraco (um dia montanha) não beneficiou os trabalhadores, também não desenvolveu a região. Deixou, entre outras histórias, esse caso dramático da ponte, e serviu para produzir um elenco de políticos que nasceram na mesma corrida de cobiças, conflitos, celeumas, assassinatos; dramas humanos clivados pelas bateias. Um desses políticos é Sebastião Curió, então Major do Exército enviado do sistema de segurança, ainda no auge da ditadura, para “comandar” o garimpo. Reportado pelo livro, ele comandou, com a autoridade emanada de Brasília, o garimpo e toda a região, que ele conhecia desde os tempos da Guerrilha do Araguaia. Virou líder numa hora a favor, noutra, contra os garimpeiros. E cedeu o próprio apelido ao distrito que antes se chamava “Trinta” (alusão ao Km 30 da Rodovia PA 275), vizinho de Serra Pelada. Os dois povoados, desmembrados de Marabá em 1988, darem origem ao muncípio de Curionópolis, onde o major só cantou como prefeito no ano de 2000. Curió é um personagem inarredável da história, um capítulo a ser aprofundado, mas que vem à tona, na devida proporção, no livro de Paulo Roberto.
A obra é enriquecida com depoimentos de quem viveu a tragédia do garimpo e do massacre na ponte. Destacam-se ainda os conflitos com a principal mineradora da região, a então estatal Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), hoje, Vale, que se consolidou como controladora da província mineral de Carajás. Conflitos agravados na sequência de choques entre lideranças de garimpeiros e a empresa, que envolveram as forças de segurança, incluída a Polícia Militar de todos os governos, desde que o Projeto Carajás foi implantado.
“Encurralados na Ponte” é uma história de mais de 30 anos. Nas palavras do autor, o livro revela o modo de ocupação e exploração da Amazônia intensificado na segunda metade do Século XXI: as relações entre o Estado brasileiro e os grandes projetos de extração de minério, ocupação da terras, produção de energia, corte de madeira e exploração de outras commodities que deixam benefícios mínimos para a região.
Ao contar a história do conflito na ponte, além de resgatar a memória da luta dos garimpeiros, inclusive de quem se perdeu no tempo sem nome de registro em cartório, identidade civil reduzida a um apelido de “Zé” de algum lugar, conclama a sociedade à resistência e à participação social. “O livro é uma denúncia viva dos conflitos gerados por um modelo de desenvolvimento que expropria não só ativos ambientais, mas os direitos da população local; afeta as cidades e o meio rural sem garantir a sobrevivência das futuras gerações. Restam desse processo devastador muitos buracos; pessoas desaparecidas; mortos e cruzes fincadas pelas terras, rios da Amazônia, estradas e pontes paraenses”, assinala Paulo Roberto.
O lançamento do livro ocorrerá às 18h na sede da Editora Paka-Tatu, localizada Rua Bernal do Couto, 758 (entre Generalíssimo e Dom Romualdo de Seixas – Umarizal).