WALCYR MONTEIRO

Aos 79 anos, morre o escritor das lendas, visagens e assombrações

Autor de uma miríade de histórias assombrosas e divertidas, Walcyr deixou contos de Natal, traduzidos em várias línguas, e poemas.

O falecimento do escritor Walcyr Monteiro deixa o meio literário paraense triste e carente de novos mistérios e visagens. O escritor morreu depois de uma das tantas temporadas no hospital, vividas nos últimos tempos.

Walcyr tornou-se um escritor desassombrado e íntimo de personagens de causos e lendas; visagens e assombrações que povoam o imaginário popular aqui e alhures. “Meu irmão se foi e, tenham certeza, não vai assombrar a vida de ninguém. Muito pelo contrário”, disse Walbert.

Sem trocadilho, as obras de Walcyr -  um estilo simples de narrativa popular -  assombraram, no bom sentido, não só os paraenses, mas também os leitores de vários países. É um gênero que faz muito o gosto da geração contemporânea de leitores apreciadores de lieratura que fala de mistério, terror, vampiros.  Por isso, os livros de Walcyr encantam jovens e crianças. Com muitas histórias doutro mundo, ele fazia sucesso nas escolas.

Saindo desse universo, Walcyr Monteiro escreveu dois livros sobre o tema do Natal e outros dois de poemas - “Miscelânea ou Vida em Turbilhão” e “Cosmopoemas”.

Por conta de histórias universais, o escritor viajou por vários continentes divulgando seus livros. Foi do Chile ao Japão fazendo palestras e autografando o livro “Contos de Natal”, traduzido para o inglês, espanhol, russo e japonês. E deixou inédita uma tradução para o alemão. Em parceria com o escritor português Fernando Vale, lançou em Portugal “Histórias para crianças brasileiras e portuguesas”.

A carreira de escritor começou com “Visagens e Assombrações de Belém”, que narra lendas e causos misteriosos, passados na capital paraense, incluindo a “A moça do táxi”, a mais famosa, que virou filme. Na mesma linha, “Visagens e encantamentos da Amazônia” é outro livro de sucesso.

Quem pensa que Walcyr criava as mórbidas, porém divertidas, histórias a partir de um simples registro que ouvira de alguém, está enganado. Percorreu o interior do Pará colecionando narrativas inspiradoras,  escavadas direto nas fontes, as catacumbas do Cemitério da Soledade, em Belém, e de um igualmente antigo campo santo de Manaus, de onde trouxe coleções de manuscritos que encontrara dentro dos túmulos. Incursão que lhe custou caro. E isso não foi lenda, caso que ele não botou nos livros: discreto, como era da sua natureza, Walcyr contou para poucas pessoas que viveu um período doente e com perturbações que nenhum médico curou, debeladas só depois que ele retornou a Manaus e devolveu aos “proprietários originais” os manuscritos que colheu durante uma incursão no mundo dos mortos.  

A maioria das histórias foi publicada em forma de pequenos folhetins que o autor juntava em tomos colecionáveis, com capa dura e ilustrações coloridas. “Visagens e encantamentos da Amazônia” mereceu 14 edições.

Além da série sobre visagens e assombrações, publicou “Contos de Natal”, “Presente de Natal”, “As incríveis histórias do caboclo do Pará” (uma coleção de causos típicos do interior); a série “Na Amazônia Encantada” tem dois títulos: “Uma história medieval de (des)amor no século XXI” e  “Uma história de amor na era espacial”. Além da parceria em Portugal, fez dupla com o compositor Alcyr Guimarães e publicou  “Na rede dos sonhos”.

Walcyr Monteiro faleceu de complicações generalizadas, num hospital particular de Belém, às 6:30h desta quarta-feira, 29, depois de sobreviver cinco dias apenas com o coração funcionando, informa o jornalista Walbert Monteiro, irmão do escritor.

Em janeiro passado, ele completou 79 anos. Era sociólogo e economista e tinha o registro de jornalista. Técnico do extinto Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social do Pará (Idesp), foi o primeiro superintendente da autarquia que, sob a sigla CEAG-PA, deu origem ao atual Sebrea-PA.

O corpo de Walcyr está sendo velado na capela mortuária Maxi Domini, na Avenida José Bonifácio, em frente do Cemitério Santa Izabel, em Belém. O sepultamento ocorrerá amanhã, às 9 horas.

 

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Comentários

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      15 Minutes Ago

      Benigna Soares

      Ficará guardado em minhas lembranças boas de Belém. Sempre fui muito fã. Devo a ele a conclusão do meu TCC em 1999, quando escrevi sobre as diferentes narrativas sobre A Moça do Taxi - Do Oral ao Virtual. Fizemos passeios de táxi por Belém para que eu entendesse as reações dos taxistas sobre esse mito. Fez questão de me conceder a última entrevista para o trabalho dentro do Cemitério na frente do Túmulo da Josefina Comte. O Walcyr levava a sério a pesquisa para subsidiar o trabalho dele. Sem falar que é um cavalheiro, gentil e muito engraçado. Espero que não se vá agora também das nossas memórias, pois ainda tem muitos causos a nos contar inspirando outros escritores e contadores de estórias.


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