Entrevista exclusiva
Joanna Martins, diretora executiva do Instituto Paulo Martins e da Manioca, agradece aos parceiros do projeto e anuncia o fim (Foto: RedePara.Web.ViewModels.Sgn.Foto?.credito)
A nota oficial da diretoria executiva do Instituto Paulo Martins, nesta quarta-feira (22), pegou o trade turístico de surpresa. Chegou ao fim o Festival Ver-o-Peso da Cozinha Paraense (VOP), a mais antiga e renomada iniciativa de promoção e divulgação do turismo do Pará, por meio da gastronomia, expressão da nossa cultura, hábitos e costumes herdados dos nossos ancestrais europeus, africanos e indígenas.
Na nota, Joanna Martins, diretora executiva do Instituto Paulo Martins e da Manioca, agradece aos parceiros do projeto e anuncia o fim.
Nesta entrevista, exclusiva, Joanna relembra o empenho e dedicação da Família Martins para o sucesso e os resultados do premiado festival, que começou em 2000, quando, no mês de dezembro, trouxe ao Pará os seis primeiros chef´s de renome internacional: Celso Freire (PR), César Santos (PE), Emmanuel Bassoleil (SP), Sérgio Arno (SP), Teresa Corção (RJ) e Danio Braga (RJ), que visitaram, entre outros espaços turísticos de Belém, o que inspira o nome do evento, o Complexo Ver-o-Peso.
BS: O que significou o Ver-o-Peso da Cozinha Paraense para a Família Martins?
O VOP foi a ferramenta encontrada pelo meu pai, o Chef Paulo Martins (idealizador e principal realizador até 2006), de fazer as pessoas (inicialmente Chefs e jornalistas) virem a Belém, conhecer os nossos sabores e a nossa cultura alimentar, in loco. Por que ele se angustiava muito de apenas levar esses sabores para outros lugares e as pessoas não viverem isso tudo aqui, no Pará. Ao longo do tempo, o evento cresceu e passou a ter um significado ainda maior, para turistas e paraenses. Então pra nós o VOP foi uma grande missão de amor e dedicação realizada pela nossa família em prol do turismo e da gastronomia paraense, a partir do carinho que temos pela nossa terra e pelo potencial de geração de negócios que vemos nela.
BS: Quando o VOP começou o olhar era para a gastronomia do Pará mas ao trazer grandes chefes nacionais e internacionais (só na terceira edição, que acompanhamos de perto, foram mais de 20) o evento despertou a atenção do mundo para o conceito da gastronomia amazônica. O que isso representou para o seu pai?
Na verdade, o VOP nasceu com o objetivo de apresentar a gastronomia paraense para chefs e jornalistas de fora do Pará. O objetivo principal sempre foi esse. E com certeza, a receptividade que ele teve do mercado gastronômico brasileiro, deixou meu pai muito feliz e realizado. Porque ao longo do tempo, o festival passou a ser um atrativo turistico para a cidade.
BS: O VOP não é uma referência só da culinária. É a nossa cultura, os nossos costumes e tradições afro, europeias e indígenas. Como é deixar de lado um projeto tão grandioso e transformador?
Com certeza é com muita tristeza que anunciamos essa decisão, que foi sendo amadurecida durante todo o ano de 2019. Mas ao mesmo tempo, só a tomamos, pois vemos que o cenário local amadureceu bastante e que vivemos hoje uma Belém, ou até mesmo um Pará, muito diferente daquele que tínhamos há 20 anos atrás. Hoje temos diversos eventos acontecendo na cidade e no Estado, duas universidades em atuação, vários cursos livres de gastronomia e muitas ações de pesquisa em curso. A cozinha paraense é reconhecida nacionalmente e o Pará é um dos principais destinos do Brasil. Quando se fala em turismo gastronômico já até contamos com alguns roteiros no mercado. Entao, entendemos que muito daquilo que semeamos ao longo dos anos está frutificando.
Por isso acreditamos que o objetivo do VOP foi cumprido.
BS: Não se anuncia o fim de um projeto como o VOP da noite para o dia. Qual a real motivação para encerrá-lo?
Na verdade, muitos foram os motivos para chegarmos a essa decisão, mas talvez, o principal motivo foi a dificuldade de captação financeira para o projeto. Mesmo contando com apoio do Estado e do Município, de alguns profissionais e empresas locais, o montante necessário para realizá-lo de forma profissional, é bem alto e o que vinhamos conseguindo captar nos últimos anos não era suficiente. Infelizmente as maiores empresas aqui estabelecidas nao vêêm a importância cultural do evento para o Estado/País e as empresas nacionais também nao.
BS: Na sua opinião, por que os gestores públicos e também o trade, em especial o segmento do receptivo turístico que se beneficia desse trabalho de promoção e divulgação do destino Pará e Amazônia não despertam para apoiar uma causa tão nobre?
Acredito que falta um pouco de olhar profissional e mercadológico para o turismo do Pará. A maioria das ações é muito limitada e pautada em visões individuais. Precisamos aprender a trabalhar em conjunto e, inclusive com empresas e pessoas de fora, por causas coletivas. Eleger prioridades por razões mercadológicas e que sejam abraçadas por todos ou pelo menos pela maioria do trade. Temos um potencial turístico gigante no Estado, mas enquanto o setor tiver olhando pra dentro e não pra fora, enquanto estiver ouvindo seus pares e não os clientes, vamos continuar remando contra a maré da geração de negócio.
BS: A Família Martins construiu um legado e além do VOP tem a Manioca, o Lá em Casa, e outros projetos. Com o fim do VOP os desafios agora são outros e teremos novidades e inovações ou o projeto enfraquece nesse contexto de carregar a imagem do Pará mundo à fora?
De forma alguma. A Família Martins continua totalmente focada em promover o Pará, sua biodiversidade, cultura e seus sabores. Procuramos nos fortalecer constantemente através de várias outras ações do Instituto Paulo Martins, do Lá em Casa e da Manioca. No La em Casa, por exemplo, acabamos de recolocar no mercado paraense a famosa tartaruga. Um prato emblemático da história gastronômica paraense que há muitos anos deixou de ser ofertado no mercado local e que agora volta em nosso cardápio. Uma ação muito importante para a manutenção da cozinha tradicional paraense. Já a Manioca, tem previsão de lançar pelo menos 10 novos produtos em 2020, para expandir a missão de levar os sabores amazônicos para o mercado nacional de forma criativa e ao mesmo tempo, valorizando e desenvolvendo os povos e comunidades tradicionais do Para. A chef Daniela Martins, minha irmã, também está lançando em breve o 'É Pra Levar', um projeto pessoal de comida paraense/caseira para o dia a dia das famílias paraenses, além de estarmos sempre articulando e apoiando projetos e ideias para o desenvolvimento da pesquisa, educação e turismo gastronômicos com empresas e entidades locais e nacionais, através do Instituto Paulo Martins. Sendo assim, fica claro, que o VOP foi apenas um capítulo de nossa atuação que se encerrou.
BS: A decisão de encerrar o VOP é definitiva ou uma parceria que suprisse os desafios e obstáculos de executá-lo hoje poderia mudar essa decisão?
É definitiva.
BS: uma mensagem aos empreendedores que junto com a Família Martins e seus parceiros executaram o VOP nessas quase duas décadas?
Muita gratidão pelo apoio e dedicação que recebemos ao termos o VOP abraçado por todos os envolvidos e que podemos até mudar de rota, mas nunca desistir, apesar de todas as dificuldades, de acreditar, promover e valorizar as riquezas de nossa terra, da nossa cultura.
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