Exemplo

O que São Caetano do Sul tem a ensinar ao Brasil, e ao Pará, na luta diária contra o coronavírus

Com programa de saúde pioneiro no País, município do ABC paulista buscou parceria científica, investiu em tecnologia e agregou apoio colaborativo para fortalecer a tríade ensino, serviço e comunidade.

Com seus pouco mais de 160 mil habitantes, segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), São Caetano do Sul, localizado na mesorregião metropolitana de São Paulo, tem muito a ensinar a Estados e municípios, não apenas no que se refere aos elementos socioeconômicos que já o colocaram no topo da pirâmide com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDHM) do Brasil. Desde março, também dá exemplo, a quem possa interessar, de como lidar com a ameaça, riscos e registros de infecção do novo coronavírus, cujo caso inaugural da pandemia no País ocorreu em 22 de fevereiro na capital paulista.    

A Secretaria Municipal de Saúde local, ao lado da Universidade de São Caetano do Sul (USCS) e outros parceiros, demonstrou vontade política, senso colaborativo e criatividade em um projeto técnico-científico pioneiro que vem dando resultados satisfatórios com atendimento da população em casa. A parceria evita circulações e aglomerações na busca de atendimentos quando há suspeita da doença a partir de sintomas relatados pelos cidadãos em site específico ou telefone exclusivo. 

“Com o surto da doença causada pelo novo coronavírus/Covid-19 e a determinação da OMS [Organização Mundial de Saúde] como pandemia, em março, a Prefeitura de São Caetano do Sul, por meio da Secretaria de Saúde, elaborou algumas estratégias de ações de contenção da disseminação do vírus no munícipio”, explicou a secretária de Saúde Regina Maura Zetone Grespan em entrevista exclusiva ao REDEPARÁ. 

Ela informou que foi instituído o Comitê Municipal de Emergência Sanitária contra o Coronavírus, do qual participa o gestor do curso de Medicina da USCS, João Carlos Bizário, e do Infectologista Fabio Leal, “fortalecendo a parceria ensino, serviço e comunidade”, segundo destacou. 

“Assim, foi idealizado o ‘projeto Corona São Caetano’ para realização de testagem da população com manifestação de síndrome gripal, monitoramento clínico e epidemiológico, o controle da circulação no município na tentativa de reestabelecer o elo epidemiológico e mitigar os casos de Covid-19 em nível hospitalar”, salientou a secretária. 

Não houve grandes dificuldades para a parceria e planejamento, já que, conforme disse, “a Universidade de São Caetano do Sul é uma autarquia municipal e participa ativamente nas ações da administração do município”. “A parceria foi firmada com a abertura do curso de Medicina na Universidade Municipal de São Caetano do Sul, integrando os estudantes na Estratégia Saúde da Família desde o 1º ano, ressaltando que o projeto conta apenas com a participação dos alunos/internos dos 5º e 6º anos de Medicina. Além disso, foi contratada a Fundação Faculdade de Medicina da USP [Universidade de São Paulo] para a elaboração dos testes [do método laboratorial] RT-PCR, por meio do Instituto de Medicina Tropical, e uma startup para a elaboração do software de inteligência epidemiológica para interpretação dos dados.”

De acordo com Regina Maura Zetone, a parceria foi firmada desde 2014 com a abertura do curso de Medicina na USCS, totalizando um período de seis anos, mas o vínculo para a constituição do Programa Corona São Caetano ocorreu mesmo em março passado. 

“A Secretaria da Saúde contribuiu com recursos humanos disponíveis nas unidades básicas, equipes técnicas e médicas da Estratégia Saúde da Família e recursos materiais como os EPIs [Equipamentos de Proteção Individual], chips telefônicos para uso dos alunos, custeou o software para implantação da plataforma de inteligência epidemiológica do programa, que permite desde o cadastro dos munícipes ao monitoramento dos exames e controle da epidemia, o contrato para os testes de RT-PCR e testes de sorologia em massa da população. Quanto à universidade, contamos com o apoio dos professores na capacitação das equipes e dos alunos, na avaliação remota/presencial dos munícipes, no acompanhamento das autocoletas domiciliares e no monitoramento das pessoas testadas”, detalhou a titular da pasta de Saúde sobre as contrapartidas institucionais.

APOIO E ESTRUTURA 

Para a efetivação do projeto, houve também a participação da iniciativa privada. A General Motors cedeu dezoito veículos, auxiliando na logística das coletas domiciliares, entregas de exames, entre outras tarefas. O grupo Casas Bahia doou refrigeradores a Unidades Básicas para o armazenamento dos exames coletados. Até quase o final de junho, já foram aplicados pela Prefeitura cerca de R$ 6 milhões na testagem geral dos habitantes.
A operacionalização dispõe de Central de Atendimento 0800 com dez profissionais atuando na realização dos cadastros de pessoas sintomáticas, apoio das equipes da atenção básica e estratégia saúde da família – enfermagem, agentes comunitários e médicos –, além de motoristas. A USCS participa com alunos no teleatendimento remoto e presencial nas visitas domiciliares, orientações das autocoletas dos exames, entrega de resultados, medicações e monitoramentos necessários.  

“Na primeira fase do projeto Corona São Caetano, para ser atendido, o muni´cipe se cadastra pelo site coronasaocaetano.org ou Disque Coronavi´rus  [0800 774 4002], informando dados pessoais e sintomas em um questiona´rio on-line pelo paciente ou por atendente ao telefone”, afirmou Regina Maura Zetone. Cada quadro clínico é avaliada por médico, que faz contato por telefone num prazo de até 24 horas. 

As mobilizações subsequentes consistem no encaminhamento dos pacientes de maior risco ao sistema de sau´de, orientac¸a~o aos casos descartados e visita me´dica para exames fi´sicos e amostragem aos casos de risco intermedia´rio. Posteriormente a` coleta das amostras, os testes sa~o encaminhados ao laborato´rio do Instituto de Medicina Tropical da USP para ana´lise do RT-PCR-Covid-19. 

“Os pacientes com teste positivo sa~o acompanhados por me´dicos mediante visita domiciliar ou teleconsulta, com periodicidade de 48 horas. Ao longo do acompanhamento, os me´dicos podem prescrever tratamento medicamentoso domiciliar ou encaminhá-los aos servic¸os de sau´de”, declarou a secretária. “A segunda fase, passamos agendar, contato telefônico, a testagem dos RT-PCR negativos desses primeiros pacientes com testes enviados pelo Ministério da Saúde, porém operacionalizados pelos profissionais em soro colhido das pessoas.”

Somente no período de 6 de abril a 22 de junho foram realizados 7.384 atendimentos por intermédio de ligações telefônicas e feitos 4.770 testes em autocoletas nas residências, obtendo um total de 1.750 casos positivos. “Frente a isso, a estratégia viabilizou a contenção na identificação e isolamento de casos de Covid-19, apresentando uma significativa redução dos números de casos e na mortalidade associada aos casos graves”, garante Regina Maura, ressaltando que houve correção na metodologia de atuação, relacionada a “alguns fluxos na dinâmica com os alunos/internos e determinadas adequações na plataforma para garantir a melhoria do serviço”. “Atualmente estão sendo chamados os negativos do RT-PCR para teste sorológico”, observou. Sobre implementar inovação no processo durante a crise sanitária, ela acrescentou: “Faremos a terceira fase do programa testando os contatantes dos casos positivos RT-PCR por sorologia”. 

Ao ser questionada na reportagem se a metodologia pode ser replicada em outros municípios brasileiros, inclusive gerando projeto em nível de governo estadual, ela respondeu: “Acreditamos que sim. Há necessidade de direcionamento de recursos para testagem e vontade política, além de assessoria direta de médicos epidemiologistas que possam orientar e apontar o andamento do programa”.

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Coronavírus gestão pública Saúde

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