“A Profecia”

De gelar o sangue: Pipoca & Nanquim resgata clássico do terror

Após décadas fora de catálogo, editora Pipoca & Nanquim resgata do limbo famoso livro de David Seltzer em edição de luxo e com extras exclusivos, mas descarta publicar as partes finais da trilogia de arrepiar.

Se a Bíblia é o livro profético dos cristãos, um dos clássicos literários do terror mais “premonitórios” sobre a vinda ao mundo do Anticristo (do grego αντιχριστ?ς, ou "opositor a Cristo"), prevista no Apocalipse do evangelista João, acaba de ser relançado no Brasil: “A Profecia”, de David Seltzer, com o selo da Pipoca & Nanquim. 

O livro compõe a tríade moderna do gênero com foco na influência maligna que começou com “O Bebê de Rosemary”, de Ira Levin, e “O Exorcista”, escrito por William Peter Blatty, os quais, para muitos, não devem absolutamente nada às melhores criações macabras de Stephen King e honram o universo sombrio de fantasia e/ou ficção estranha composto por mestres referenciais como Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft, Arthur Machen, Algernon Blackwood, Robert E. Howard, Robert Bloch, Frank Belknap Long, Donald Wandrei e Manly Wade Wellman.

“Conflito Final”: o duelo conclusivo entre forças antagônicas

Segundo um dos sócios da editora e tradutor da obra, o escritor Alexandre Callari, “a pré-venda foi maravilhosa e o livro continua se destacando, tendo alcançado a sexta posição na lista dos mais vendidos da revista ‘Veja’”.  Ele prefere não revelar a tiragem da obra, lançada em 22 de junho, cujos direitos autorais já estiveram com a Record e o Círculo do Livro, essa extinta em 2000. “Vislumbramos um bom crescimento das vendas, conforme o livro começa a ser cada vez mais falado nas mídias sociais e imprensa especializada”, diz ele.

“A Profecia” na versão do Círculo do Livro: temática apocalíptica

TAREFA COMPLICADA 

Publicado em 1976 e tendo inspirado filme homônimo de grande sucesso com os astros Gregory Peck e Lee Remick nos papéis centrais e dirigido por Richard Donner (“Os Goonies”, “Superman – O Filme”, a quadrilogia “Máquina Mortífera”, entre outros), além de remake em 2006 destacando Liev Schreiber e Mia Farrow, o clássico despertou o desejo imediato de Callari e de Daniel Lopes e Bruno Zago, que formam a cúpula administrativa e editorial. “O interesse surgiu justamente após descobrirmos que uma obra tão importante para a literatura de terror estava fora de catálogo há tanto tempo”, explicou ele. “Esse tipo de projeto é justamente o que a Pipoca & Nanquim gosta de desenvolver. Portanto, a partir desse momento, começamos a buscar a viabilização da publicação.”

Mas a tarefa não foi nada fácil: o título estava fora de catálogo há muito tempo e descobriu-se em seguida que não existiam originais em PDF. A tradução teve de ser feita diretamente de uma edição pequena da editora ianque Futura, comprada no Market Place. 
Antes, houve grandes dificuldades na localização do agente do autor, o que só foi possível após garimpagem no IMDb, base de dados também conhecida como Internet Movie Database, que concentra informações detalhadas sobre música, cinema, filmes, programas e comerciais para televisão e jogos de computador. 

A negociação acabou travando em maio passado com o advogado do escritor até o próprio entrar no circuito em um considerado “plot twist”, uma reviravolta no enredo real pela publicação. Depois do sufoco, o lançamento passou a ser tratado internamente como “uma pepita” do catálogo e um novo divisor de águas. 

“Abre mais uma porta para a editora”, admite Alexandre Callari. “Somos majoritariamente conhecidos pela publicação de quadrinhos;  contudo, fomos extremamente bem-sucedidos ao lançarmos a trilogia ‘Conan – o Bárbaro’ com os contos originais do personagem, e os livros ‘Gastaria Tudo com Pizza’, de Pedro Duarte, e ‘A Floresta das Árvores Retorcidas’, de minha autoria. A ideia de lançar um clássico do terror era seguir em uma direção que os fãs não esperavam e, ao mesmo tempo, atrair novos leitores que ainda não conheciam o trabalho da editora.

O norte-americano David Seltzer, atualmente com 80 anos, que escreveu o posfácio exclusivo, gostou do formato do título brasileiro, em edição luxuosa e capa dura e que apresenta como outro bônus notificações do roteiro original. “Ele aprovou todo o design e simplesmente amou o trabalho da Giovanna Cianelli, responsável pela capa e diagramação”, informou Callari, que não prevê, por ora, a segunda edição. 

No entanto, salientou, a comercialização já está ocorrendo normalmente. “O maior canal de vendas é via Amazon, que tem exclusividade no grande varejo, mas diversas comic shops também recebem o título em todo o País, assim como algumas livrarias regionais”, explicou ele. 

Sobre o trabalho de tradução, disse: “Eu já tinha lido a obra em uma edição antiga e já assistira ao filme diversas vezes. Portanto, conhecia muito bem a história. Mesmo assim, devotei-me a fazer o trabalho mais minucioso que pude. Por sorte, o texto original é extremamente competente, o que facilita bastante a função do tradutor.”

SEQUÊNCIA DESCARTADA

Alexandre Callari também avaliou o “leitmotiv” do tema que conquistou o público em uma visão apontada como inovadora da luta do bem contra o mal. “O livro foi lançado concomitantemente ao filme, e um serviu de plataforma para o outro para que ambos fossem sucessos. Ele também saiu no momento mais propício, fechando a ‘tríade sagrada’ dos filmes de terror modernos com foco na figura do Diabo, sendo os outros dois ‘O Bebê de Rosemary’ e ‘O Exorcista’, apontou. 

“Na época de seu lançamento, A Profecia tratava de um tema praticamente inexplorado, o que atraiu a atenção dos fãs, e também gozou de uma longa exposição por conta das continuações e da refilmagem. O conceito do 666 [o número da Besta, segundo o texto bíblico], foi arraigado ao inconsciente coletivo muito por conta da obra, servindo de inspiração para peças de teatro, pinturas, letras de música etc.”

Apesar do interesse gradual por A Profecia, que inicia a trilogia completada “Damien – Profecia II”, de Joseph Howard, e “Conflito Final – A Última Profecia”, de Gordon McGill, que falam sobre a evolução e propósito do Anticristo na Terra, esses dois livros, de qualidade um pouco inferior, conforme alguns críticos, não são cotados para publicação pela Pipoca & Nanquim. “Não estão nos nossos planos esses lançamentos”, adiantou ele.

Na “Profecia II”, Damien Thorn, aos 13 anos, descobre quem realmente é

Na “Profecia II, o protagonista descobre quem “representa” a partir da descoberta do número 666, citado em trecho do Apocalipse, o Livro das Revelações, capítulo 13, versículo 18: “Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis. O filme do qual derivou é estrelado por grandes atores, como William Holden e Lee Grant. 

No terceiro livro, o protagonista Damien Thorn vai em busca do reinado maléfico sobre a humanidade, mas saberá que, “em algum lugar, uma criança está para nascer, a última e tão desejada esperança de salvação das chamas consumidoras do inferno”. Na produção cinematográfica, Sam Neill (“A Caçada ao Outubro Vermelho”, “Thor: Ragnarok”) interpreta o Anticristo, aos 32 anos, e com muita sede de poder.

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Literatura Terror

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