Alimento do Século XXI

Viseu comercializa a melhor farinha produzida nas casas de forno pela agricultura familiar

Zonas rurais de Viseu e Bragança produzem a famosa farinha bragantina que agrada todos os paladares

Em julho passado fui visitar uma irmã que mora em Viseu, nordeste do Pará. Ela é casada com Manoel Paiva, de 67 anos, conhecido na cidade como o Manoel da Farinha por sua tradicional atividade de compra e venda de farinha há muitos anos.

Peguei uma carona com ele e fomos comprar o produto nas casas de forno que torram a famosa farinha de mandioca, declarada pela ONU (Organização das Nações Unidas) como o alimento do Século XXI, por suas inúmeras propriedades e aplicações como na panificação, na indústria têxtil, de fármacos e cosméticos, entre outras.

Saímos de Viseu em uma caminhonete Strada por volta das 7h da manhã de uma sexta-feira. Pegamos a BR 308 (Bragança-Viseu) e seguimos para a zona rural do município onde se produzem a disputada iguaria. Nessa época do ano, a BR-308 é dominada pela poeira, o que já causou até interdição por prejudicar a saúde dos moradores que vivem ao longo da rodovia.

A máscara que uso para evitar a contaminação pelo Coronavírus, serviu para amenizar a respiração de tanta poeira que muitas das vezes o carro que vem atrás do que passa na frente fica com a visão prejudicada.

A BR -308 está todas raspada esperando o tão aguardado asfaltamento. Os motoristas esperam com ansiedade esse dia chegar, pois no inverno vira um mar de lama, o que tem causado acidentes com vítimas.

Depois de cerca de três horas de BR, entramos em uma vicinal que está recebendo melhorias já visando as próximas eleições, segundo os moradores desses locais. A primeira parada foi na Vila Monte Alegre, para nos informamos sobre a produção de farinhas nas casas de forno.

Seguimos mais alguns quilômetros em ramais de terra batida e muitos buracos até chegar na Vila Soares. Chegamos na hora que os trabalhadores estavam torrando a farinha em formo de barro e lenha.

Em conversa com o proprietário do produto, ficou acertado que no final da tarde ficariam prontos seis sacos de 60 quilos que buscaríamos na volta das outras casas de forno que iríamos visitar.

Na segunda casa de forno, ainda na Vila Soares, os trabalhadores estavam ralando, lavando e peneirando a mandioca para poder secar e torrar. Foi nesse local que o nosso carro começou a apresentar problema no motor. Desde Viseu o carro já vinha aquecendo muito o motor e consumindo muita água.

Seu Manoel ficou preocupado com medo de bater o motor e nós ficarmos no prego dentro do mato. Voltamos para a Vila Monte Alegre para um mecânico que morar lá, e conhecido do Manoel da Farinha fazer uma gambiarra. Deu certo. Em seguida seguimos para Bragança para resolver o problema que era a falta de ventilação. A ventuína do carro estava queimada.

Pegamos de novo a BR-308 e comemos poeira até Bragança. Chegamos em uma oficina que trabalha com auto elétrica e era mesmo a ventuína que estava queimada e não refrigerava o motor. Gastamos 125 reais pelo conserto e voltamos para a estrada.

Chegamos na comunidade Imburuazinho, que faz parte do município de Augusto Correa, por volta das 5h30 da tarde. Os trabalhadores já tinham quatro sacos de farinha torrada e continuavam com a mandioca no forno torrando mais.

Seu Manoel entrou em negociação com eles e comprou as 4 sacas de 60 quilos pelo valor de 170 reais cada um. Em Viseu ele vende o caso de 50 quilos por cerda de 300 reais, e ainda ganha 10 quilos o que dá um bom lucro.

Mais na frente o dono da farinha não aceitou o preço oferecido. Ele queria 300 reais pela saca. Seguimos já com a noite lambendo a floresta até outro local onde o dono tinha 7 sacos embalados. Depois de muita conversa ele vendeu os sete sacos por 190 reais cada um. É muito interessante a negociação, que envolve amizade, qualidade do produto e transporte do mesmo. Tudo em dinheiro vivo.

Embarcamos a farinha e seu Manoel já deixou outra leva encomendada para pegar em outro dia. Seguimos para a Vila Soares onde outros seis sacos estavam apalavrados. Chegamos já de noite e embarcamos os seis sacos que saíram por 160 reis cada um. O que determina o valor é a qualidade da farinha.  

No total estavam embarcados na caminhonete 18 sacos de farinha de 60 quilos. Amaramos todos na Strada e um pneu ficou muito baixo. Um problema para seguir pelas estradas de chão e buracos. O dono da farinha informou que um morador mais à frente tinha uma bomba que poderia encher o pneu. Fomos até lá e ele encheu o pneu pela amizade que já tinha com seu Manoel.

Pegamos a BR-308 de volta já de noite e enfrentamos mais poeira mesmo de noite. O cansaço já se apresentava e a volta parece que demorava ainda mais. Mesmo com 67 anos, seu Manoel de fazia de forte, mas era evidente o cansaço que ele tinha enfrentado durante todo o dia e início da noite.

Chegamos em casa em Viseu por volta de 23h30.  De manhã outra rotina. Vender a farinha, na feira, na própria casa e nos comércios da cidade. Em Viseu a famosa farinha bragantina, a mais procurada pelos moradores, (também são vendidos outros tipos de farinha de menor qualidade e mais barata) estava sendo vendida entre 6 e 10 reais o quilo.

Os dezoitos sacos foram vendidos em apenas três dias. Uma nova viagem estava programada para trazer mais farinha, mesmo com todas as dificuldades de transporte.

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Farinha bragantina Farinha de mandioca Gastronomia

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