Maternidade

Saúde mental: Psicóloga ajuda a compreender assunto que ainda é pouco discutido

Quando falamos em maternidade, é comum tratarmos de assuntos como o desenvolvimento da gravidez e do bebê, parto normal, cesariana, parto humanizado. Outras vezes, de modo mais geral, fala-se sobre os desafios da criação, sobre a alegria, realização e plenitude da maternidade para a mulher e para a família que espera a chegada de uma nova criança. Com isso, outro tema acaba ganhando menos atenção do que merece, que é a saúde mental da mulher nessa nova fase da vida.

A organização Aliança Global pela Saúde Mental Materna (Global Alliance for Maternal Mental Health), estima que uma a cada cinco novas mães sofre com algum tipo de transtorno do estado de ânimo e ansiedade, no período desde antes até depois do nascimento do bebê. E um complicador neste cenário é que, além de pouco falado, o problema também costuma ser evitado ou escondido pelas próprias mulheres, por medo de serem associadas a estereótipos como o da “mãe ruim” ou “degenerada”, por não expressarem os sentimentos de alegria e plenitude esperados pela sociedade.

A psicóloga do Hapvida, Shirley Monteiro, ressalta que “de maneira geral, a gravidez é considerada como um momento privilegiado de extrema harmonia. No entanto, a realidade é outra. A gravidez pode ser um estágio de crise na vida da mulher. Um estágio normal, mas que marca um período de transições, acontecendo mudanças de identidade, uma nova definição de papéis. E isso pode acarretar na mulher uma série de reações, sentimentos, fantasias e expectativas”.

A médica explica que da mesma forma como a maternidade pode ser encarada com satisfação e alegria, ela também pode trazer medos e sofrimento. “Vai depender da particularidade de cada mulher. É preciso saber ouvi-la, para compreender melhor sua singularidade”, comenta.

Um dos problemas de saúde mental materna mais comuns no Brasil é a depressão pós-parto. De acordo com o Ministério da Saúde, a doença acomete mais de 25% das mães no país. A psicóloga informa que a depressão não é restrita ao pós-parto, podendo acometer em qualquer momento da gravidez.

Por isso, a especialista chama atenção para os riscos que esse problema pode oferecer: “é importante dar muita ênfase nessa questão porque esses quadros de depressão, quando não são tratados durante a gravidez, podem aumentar risco de exposição da mulher à vícios, como cigarro, álcool e outras drogas. Além de desnutrição, dificuldade de seguir orientações médicas no pré-natal e diminuição da frequência nas consultas, o que tem sido associado ao risco de mortalidade neonatal”.

Sobre esta última consequência, de acordo com informação do Sindicato dos Médicos do Pará (Sindmepa), 99 casos de mortalidade materna foram registrados em 2019, o que coloca o estado em primeiro lugar no índice, com relação aos outros estados do país. A informação inclui que as principais vítimas desse problema são as mulheres de classes sociais menos favorecidas e com menor acesso aos serviços de saúde.

Apesar dos fatores renda e acesso a serviços de saúde serem significativos em nossa realidade, é preciso salientar que qualquer mulher pode ter algum transtorno ao longo da experiência da maternidade. Shirley comenta sobre outros aspectos que podem prejudicar a saúde mental da mulher nessa fase: “Nós temos também o histórico de saúde mental dessa pessoa, ausência e fragilidade de apoio social, uso de substâncias psicoativas e complicações obstétricas”.

Para além da depressão, a médica ressalta a ansiedade como um outro grande problema: “sabemos que já existe uma ansiedade pela gravidez, por ser um momento em que as mulheres se perguntam se vão dar conta, como a gestação vai se desenvolver... Então pode aparecer uma ansiedade que chamamos de fisiológica, mas que pode vir a ser patológica, que é uma outra complicação que as mulheres enfrentam também nesse período”, enfatiza a psicóloga.

Vale dizer que, segundo a especialista, não existe comprovação sobre alguma predisposição genética que possa desencadear transtorno mental durante a maternidade, pelo contrário, “diversos estudos mostram que os sinais e sintomas orgânicos vêm de particularidades que dizem respeito à vida e à história de cada mulher”, explica a especialista. Por isso, fatores culturais, sócio-econômicos e sociais são relevantes para a garantia do bem-estar e saúde mental da mulher.

Neste cenário, o contexto familiar de cada mulher é bastante significativo. Segundo a psicóloga, “a família é entendida como uma rede primária de interação social e provedora de apoio indispensável à manutenção da integridade física e psicológica do indivíduo. Logo, o apoio dado à mulher pelos familiares, ao longo do processo da gravidez e pós-gravidez, é fundamental porque ele é considerado um fator de proteção determinante na saúde mental materna”.

Infelizmente muitas pessoas, incluindo familiares, não percebem quando a mãe está passando por situações de abalo da saúde mental, principalmente porque essas mulheres, muitas vezes, continuam praticando as atividades do dia-a-dia normalmente, ainda que o sofrimento exista. Por isso, a especialista orienta que a família busque observar as possíveis pequenas expressões de sofrimento na conduta da mulher, para que assim a busca por cuidado profissional possa ser realizada, conforme sintetiza a médica: “para ter um apoio psicológico, tem que haver uma necessidade, uma queixa. E essa queixa muitas vezes é manifestada através desse sofrimento”.

A psicóloga também orienta sobre como a mulher, com o apoio de familiares e dos profissionais necessários, pode prevenir problemas e preservar a saúde mental e emocional durante a maternidade, “um importante aspecto da assistência materna seria o apoio à mulher para adquirir, desenvolver e manter a resiliência que vai ajudá-la a desenvolver estratégias de enfrentamento da ansiedade, do estresse, reduzir o medo relacionado ao parto etc. Daí a importância de procurar uma rede de apoio junto à família, amigos, e também de profissionais qualificados”, destaca.

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