WARAOS








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O sorriso no rosto da indígena Reinalda Perez, de 29 aos, é pela diversão dos filhos que brincam com os tradicionais aviõezinhos feitos de papel. Nascida na Venezuela, Reinalda trabalhava como monitora em um hospital em sua terra de origem. Com a crise econômica e social instalada no país desde 2015, a mulher precisou se refugiar com toda a família no Brasil, onde está há um ano e quatro meses.
Hoje ela faz parte dos 212 indígenas venezuelanos que atualmente estão abrigados no Espaço de Acolhimento Institucional do Tapanã, que é administrado pela Fundação Papa João XXIII (Funpapa). "Aqui recebemos água, comida, podemos abrigar nossas famílias, temos lugar para dormir, recebemos os atendimentos das equipes", disse a indígena.
Abrigo - Inaugurado em maio de 2020, o local tem capacidade para acolher 500 indígenas. Atualmente, 50 famílias estão abrigadas no espaço. As famílias recebem alimentação, kits de higiene e são acompanhadas por uma equipe multidisciplinar composta por: assistente social, psicóloga, antropólogo, monitores, educadores, enfermeiras, nutricionistas. Além disso, recebem suporte das agências da Organização das Nações Unidas (Unicef, Acnur e Aldeias Infantis) e parceiros implementadores, como a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), em ações diárias de educação, saúde e nutrição.
Além da moradia, o objetivo do abrigo é a garantia dos direitos sociais dos refugiados, como por exemplo, a emissão de documentos e o cadastro no Adônico, que permitiu que todas as famílias abrigadas no espaço pudessem receber o auxílio emergencial. No local, diversas ações são realizadas com os indígenas. "As atividades no abrigo são humanitárias, todas são dialogadas com os acolhidos e a partir disso a nossa equipe traça o planejamento das atividades de esporte, lazer e orientação comunitária", explicou a coordenadora do abrigo, Isabely Castro.
"No nosso grupo de mulheres nós fazemos orientações sobre cuidados, higiene pessoal, amamentação e apoio psicossocial. Temos também o grupo de masculinidade, onde são debatidos temas sobre a prevenção da violência contra mulheres e sobre o cuidado masculino’, completou a coordenadora. Uma equipe do Consultório na Rua, da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma), fica no espaço para realizar atendimentos médicos, exames e medicações para os acolhidos.
Durante a semana, o abrigo recebe a desinfecção e higienização total do espaço, que é feita pela Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan). As famílias também colaboram com a higienização, com os materiais de limpeza disponibilizados pela Funpapa. O espaço é adaptado para a cultura dos assistidos. Cada família Warao possui um redário aberto, este modelo foi pensando para que as equipes possam monitorar os indígenas e identificar casos de violência contra mulheres e crianças.
Cultura - A tradição alimentar do povo Warao também é preservada, por isso os profissionais montam o plano alimentar dos abrigados com objetivo da garantia de uma alimentação nutritiva, mas que respeite a cultura deles. "Nós temos uma equipe de nutricionistas que trabalha junto conosco realizando o plano nutricional de acordo com a adaptação da cultura alimentar e condições de saúde. Existe uma alimentação específica para crianças de zero a dois anos, nós temos alimentação para idosos, pessoas enfermas, ou seja, mensalmente 18 mil refeições são feitas aqui", explicou o antropólogo e coordenador do Núcleo de Atendimentos a Imigrantes e Refugiados da Funpapa, Carlyle Martins.
Ainda segundo o antropólogo, os indígenas que estão no espaço são orientados a respeitar regras como não cometer violência contra mulheres, crianças e servidores, pois é considerado um ato grave e que pode gerar o desligamento do abrigo, de acordo a própria Política Nacional de Assistência Social.
"Sair do espaço que estávamos antes e vim para esse abrigo foi muito melhor, pois aqui os nossos direitos, como a saúde, melhorou muito, além da alimentação", comentou a Warao Maria Ligia Perez Garcia, de 30 anos, que trabalhava como professora na Venezuela, mas precisou vir para o Brasil junto com a família em 2017.
"A equipe que trabalha aqui nos atende muito bem, mas Waraos não respeitam Waraos. Muitos moradores aqui do abrigo não querem respeitar uns aos outros, não querem cumprir as regras, as leis e seus deveres. Nós temos os atendimentos que precisamos, o abrigo está sendo bom para mim e minha família, mas os moradores precisam aprender a se respeitar e obedecer as regras", contou Maria.
Pandemia - Por conta da Covid-19, os funcionários receberam kits de EPIs, com máscaras de tecido e álcool em gel. Os acolhidos também receberam máscaras, álcool em gel e orientações gerais sobre a importância da higienização e da prevenção da doença. Os indígenas passaram por um período de quarentena e por uma avaliação de saúde antes de serem levados para o abrigo.