A Biblioteca Vermelha

Antônio Carlos Pimentel lança livro sobre o livreiro, ativista e leitor Raimundo Jinkings

Na calçada da Angustura, pertinho da 25, na boca da noite, Dona Carmem Hélia se empertigou desconfiada, na cadeira de balanço feita em ferro e nylon colorido, quando me apresentei do nada. Faz uns 30 anos.

- Eu podia estar matando. Eu podia estar roubando. Mas estou aqui, para conquistar a mãe do meu melhor amigo – anunciei.
Ela, a amiga e a filha se olharam, ressabiadas.
- Mas que amigo, rapaz?! – ela ralhou.
- O Tonga, ué! - respondi.
- Ah! Tinha que ser... 
Acolhido, passei quase uma hora lá, contando piadas sem filtro e mentiras sem noção. A história do chefe de turma, que exigia esforço teatral, quase derruba da cadeira a mãe do Antônio Carlos Pimentel:
- Fou lefar todo bundo bra diretoria.

Sacanear os amigos, naquela época, era meu esporte predileto. Eu parei, eu. Mas essa cena me cutuca quando escrevo sobre o Tonga, celebrando o novo livro dele: “A Biblioteca Vermelha de Raimundo Jinkings”, que será lançado na quarta-feira, dia 20, no espaço do Ná Figueiredo. É o terceiro livro do Antônio Carlos Pimentel. Todos têm um escopo acadêmico. Este nasceu da dissertação de mestrado. Se há ficção nos alfarrábios do meu amigo (e deve haver), ele ainda esconde.

É uma escolha acertada, considerando a qualidade do que o Antônio Carlos publicou. Tonga é um garimpeiro afortunado na apuração de informações valiosas. Uma exímia rendeira, entremeando no bilro os diferentes fios das suas narrativas. Um caprichoso ceramista, modelando seus textos como se lhes desse vida. Um escritor preciso, quase cirúrgico, que conhece como poucos a anatomia de uma boa história.

“A Biblioteca Vermelha” confirma essas qualidades. No livro, Tonga não se limita a revelar de forma inédita o acervo de Raimundo Jinkings, fruto de uma pesquisa atenta. Também traduz o peso dessa biblioteca na história política do Pará. E apresenta as conexões entre o livreiro, o leitor, o comunista e o homem, como se fosse cerzindo retalhos da memória alheia.

Durante a leitura, à medida em que conhecemos melhor Raimundo Jinkings, o livro assanha o leitor a compreender a si mesmo. Emerge da obra a reflexão sobre quem somos quando lemos ou escrevemos, atando e desatando nós entre tempo e espaço.

“A biblioteca respira. Pelo que guarda, traduz os códigos da memória para a leitura do presente”, define Antônio Carlos. “O texto só ganha sentido com a intervenção do leitor para lhe dar um significado”, analisa, demonstrando, pelo exercício da biografia, o que há de Raimundo Jinkings em sua biblioteca e, principalmente, o que há da Biblioteca Vermelha em Raimundo Jinkings. E como esse acervo influenciou os corações e mentes de mais de duas gerações de leitores, escritores e ativistas paraenses.

Inclusive, ao Tonga e a mim, eu de 65, ele de 66, ambos impregnados de uma nostalgia daquilo que não vivemos, o auge da militância de Raimundo Jinkings. Fomentada pelo que lemos e descobrimos.

Nem foi a leitura que nos aproximou, a princípio. Quando o Antônio Carlos chegou à redação de O Liberal, a novidade era eu, pô. Quase fiquei puto. Eu tinha um texto correto, dizia o Frank Siqueira. Gostoso de ler, falava o Ronald Junqueiro. “Tu não és escritor, porra; tu és repórter”, ralhava o Sá Leal, elogiando ao modo dele.

Eu era o cara. Até chegar aquele branquinho, um ano mais novo, que escrevia muito bem, era mais bonito que eu (apesar das perninhas curtas) e ainda falava inglês, cacete! Em vez de odiá-lo, me encantei. Não demorou, estávamos rodando Belém, crentes de que íamos mudar o mundo e exercitando a arte de sacanear os amigos – e as mães de alguns.

No caminho, nos descobrimos como leitores, ouvintes, cinéfilos.
Quem deu a largada foi o Tonga, ao me presentear com um álbum do Branford Marsalis, um dos próceres do mundo do jazz, que até então eu desconhecia.

Passei a noite escutando, só faltou furar o disco. Contei pro Edvan Feitosa, meu companheiro de apê. Ele ouviu comigo e comentou:
- Nossa! É lindo!
- O disco?
- Não, Silber! O disco é ótimo. Tô falando do Tonga.

Depois vieram os livros. Foi o Tonga quem me mostrou Fausto Wolf, um provocador essencial. Um pilar na identidade do Pasquim, cujo auge nós nem vimos, mas depois consumimos. Também foi o Antônio Carlos quem me apresentou, com paixão indisfarçada, ao escritor Rubem Fonseca, que hoje tem, nas minhas estantes, um lugar cativo, e nas minhas principais referências permanece vivo.

Os livros têm esse condão, mostra “A Biblioteca Vermelha”. O próprio Rubem Fonseca falou: “Cada um de nós é cria da leitura. Ela preenche lacunas e nos torna melhores”. Mais do que leitores, somos todos cúmplices, ou combatentes, do que lemos. Que me perdoem os mais letrados, mas me atrevo a juntar Pessoa e Drummond para dizer que, quando penetramos surdamente no reino das palavras, da leitura e da escrita, viramos um intervalo entre o que desejamos ser e o que os outros nos fizeram.

Antônio Carlos Pimentel fez essa passagem com maestria. Mas eu discordo dele, quando classifica seu livro como um mergulho na história política do Pará e na vida de um ativista político que fez a diferença na vida de muita gente.

“A Biblioteca Vermelha de Raimundo Jinkings” é muito mais do que isso. “A Biblioteca” é um livro sobre afeto. O sentimento invisível que aproxima pessoas e protege amizades, sem precisão de tempo e espaço. Uma presença quase tangível, quando costura referências distintas na mesma colcha da história, pelos fios do conhecimento. Permitindo, por exemplo, que eu e Tonga permaneçamos aquecidos – e eu o admire tanto.

Só fico puto porque ele fala inglês. Não precisava.

SERVIÇO
Biblioteca Vermelha de Raimundo Junkings.
390 páginas.
Editora com Arte (USP).
Preço: R$ 60.
Compra direto com o autor:
tongacarlos@gmail.com 

 


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