Povos originários
Foto: Méle Dornelas / Acervo ACT-Brasil
Enquanto no final de 2025 a COP30 projetou a Amazônia para o centro das discussões globais sobre a crise climática, o cotidiano das mulheres indígenas evidencia uma dimensão ainda pouco incorporada aos debates oficiais: as mudanças ambientais alteraram profundamente o ritmo da floresta e, com ele, o ritmo da vida. Chuvas cada vez mais imprevisíveis, períodos prolongados de calor extremo, instabilidade dos rios e a escassez de plantas medicinais vêm impactando práticas agrícolas tradicionais e formas de cuidado comunitário ancestrais. Esses desequilíbrios afetam diretamente a saúde física e emocional das mulheres, agravando vulnerabilidades históricas já enfrentadas nos territórios indígenas.
Segundo a coordenadora-geral da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB) - articulação que reúne lideranças femininas de diferentes povos da Amazônia legal -, Marinete Tukano, os principais impactos das mudanças climáticas na saúde das mulheres indígenas estão relacionados à saúde mental, à soberania alimentar, às colheitas, à economia familiar e à violência.
A Amazon Conservation Team (ACT) acompanha de perto essas transformações por meio de ações desenvolvidas no Brasil e na Colômbia voltadas à saúde da mulher indígena. As iniciativas reforçam a compreensão de Marinete sobre como a crise climática tem impactos diretos na nutrição, no bem-estar emocional, na segurança e na vida das mulheres indígenas.
Os impactos e as consequências de um clima adoecido
A perda de roças, o assoreamento dos rios e a diminuição da pesca estão diretamente relacionados aos fatores que comprometem a soberania alimentar. Mulheres relatam sintomas como tontura, fraqueza e perda de peso, consequência de uma alimentação cada vez mais insuficiente.
Esses impactos também chegam ao cotidiano do trabalho. As tarefas se intensificaram. As mulheres caminham distâncias maiores para buscar água quando os rios baixam, passam mais horas na roça para garantir o mínimo da colheita e assumem o cuidado dos doentes em regiões onde malária, dengue e doenças respiratórias avançam com o calor. Esse acúmulo repercute diretamente na saúde física e emocional.
No que tange a segurança e a vida, pesquisas recentes, como o estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), indicam que mulheres indígenas no Brasil morrem mais precocemente do que outros grupos populacionais, evidenciando como desigualdades estruturais, racismo ambiental e mudanças climáticas se entrelaçam, produzindo impactos severos sobre seus corpos e modos de vida. Marinete exemplifica essa pesquisa ao relatar que malária, desnutrição, doenças mentais, suicídio e câncer são as maiores ameaças à vida das mulheres indígenas
A crise climática também interfere no ritmo da floresta e das gestações. Lideranças indígenas, como Olga Macuxi, e analistas da ACT, como Sandra Patiño e Lirian Ribeiro relatam um sentimento recorrente: o calendário da floresta está desorganizado. Plantas não nascem mais na época certa, raízes perdem força, remédios tradicionais demoram a agir, o aquecimento global interfere nos ciclos da floresta e até dos nascimentos. “O aumento de temperatura está associado ao risco de partos prematuros”, explica Lirian, ponto focal de Medicinas e Mulheres Indígenas da ACT-Brasil.
Nos hospitais, outro obstáculo se repete para as gestantes: violências obstétricas e institucionais. Falta intérprete, falta respeito aos rituais e às práticas de cuidado ancestral, e muitas parteiras, figuras centrais no cuidado indígena, não podem acompanhar as parturientes. Para diversas culturas, isso não é apenas desconforto, mas uma ruptura de seus modos próprios de trazer vida ao mundo. Há relatos frequentes de mulheres atendidas sem consentimento adequado, isoladas da família ou proibidas de seguir rituais essenciais durante o resguardo.
Apesar dos desafios, movimentos de mulheres indígenas, movimentos, articulações e organizações parceiras têm construído respostas próprias. A ACT, em parceria com as mulheres, vem desenvolvendo oficinas de alimentação ancestral, protocolos interculturais para hospitais, cartilhas bilíngues e articulações que fortalecem a autonomia e criam caminhos para enfrentar a crise. Lideranças apontam, porém, que sem políticas públicas que integrem saberes tradicionais, saúde e clima, essas ações não serão suficientes.
Marinete aponta que as soluções passam pelo fortalecimento múltiplo do que permeia o cotidiano das mulheres: “trabalhar a socioeconômica, a bioeconomia e programas de atenção contínua à saúde da mulher é fundamental para proteger as mulheres indígenas frente às mudanças climáticas”.
As mulheres indígenas carregam o clima no corpo. Sentem as mudanças na pele, no fôlego, na roça, na água que buscam todos os dias. Mesmo diante de violências médicas, insegurança alimentar e um território que já não avisa a hora das coisas, elas seguem sustentando a vida na floresta guiadas por parteiras, cantos, rezas e pela persistência de defender o equilíbrio ancestral.
Diante disso, enfrentar a crise climática exige mais do que metas ambientais: exige reconhecer que ela atravessa corpos. Quando o clima é ferido, o corpo da mulher indígena também é dilacerado. Cabe ao Estado assumir a saúde das mulheres indígenas como camada essencial e prioritária das políticas de enfrentamento à crise climática, garantindo acesso digno à atenção integral, respeitando os saberes tradicionais e fortalecendo as redes de cuidado que sustentam a vida nos territórios. Proteger o clima passa, necessariamente, por proteger as mulheres indígenas.