Economia criativa

Instituto Letras que Flutuam abre sede em Belém com produtos de moda e design criados por artistas ribeirinhos

Iniciativa integra o Circular Campina Cidade Velha e promove geração de renda a partir de saberes tradicionais da Amazônia

Artesãos ribeirinhos de diversas regiões do Pará assinam uma coleção de moda e design inspirada nas cores e paisagens da Amazônia, apresentada neste domingo (12), em Belém, durante a abertura da nova sede do Instituto Letras que Flutuam, no bairro da Campina.

O local funciona como sede do instituto e reúne um espaço de demonstração das atividades e do trabalho dos abridores, mestres responsáveis pelas pinturas multicoloridas que identificam embarcações na Amazônia.

A coleção reúne camisas, agendas, cadernetas, letras e impressos desenvolvidos em parceria com mestres artesãos do Pará, além de placas pintadas à mão. A renda das obras dos abridores é destinada integralmente aos próprios artistas.

A proposta é aproximar o público urbano dos saberes tradicionais e fortalecer a economia criativa baseada em práticas culturais da região. As peças carregam referências da fauna, da flora e das paisagens amazônicas, traduzidas nas cores, formas e ornamentos característicos das embarcações.

Durante a programação, os abridores Donielson da Silva Leal, conhecido como Kekel, de Muaná, e Antônio Marcos Ribeiro Barata, de Vigia, estarão no local para demonstrações ao vivo, pintura de letras e encomendas.

Kekel atua há cerca de nove anos como abridor de letras e também trabalha como pescador. Autodidata, começou a desenhar ainda na adolescência, inspirado nas pinturas dos barcos. “Eu não tive um mestre, fui um ribeirinho que apreciava as letras dos barcos e fui desenvolvendo como autodidata”, afirma.

Já Antônio Barata trabalha há 38 anos na atividade, aprendida com o pai e o irmão, e também atua como pintor civil. Para ele, a participação no instituto amplia a visibilidade do ofício. “A expectativa é que o nosso trabalho seja reconhecido não só no Pará, mas em todo o Brasil”, diz.

Segundo a autora e pesquisadora Fernanda Martins, os produtos têm despertado o interesse do público. “As peças chamam atenção pela força estética, pela história que carregam e pelo diálogo direto com os rios, as cores e os modos de vida ribeirinhos. As pessoas se encantam quando descobrem que essa escrita nasceu nos cascos dos barcos e continua viva nas comunidades”, afirmou.

“Cada peça traz traços, ornamentos e tipografias tradicionais pintadas há gerações nos cascos de embarcações amazônicas, transformando esse patrimônio ribeirinho em produtos contemporâneos que preservam sua essência e ampliam sua circulação”, explicou.

Ela destaca que a iniciativa também contribui para fortalecer o trabalho dos artistas. “São produtos que se tornam uma oportunidade para valorizar a cultura tradicional em prol do próprio detentor desse saber, que são os mestres ribeirinhos”, disse.

Criado em 2024, o Instituto Letras que Flutuam é o primeiro do país dedicado à cultura gráfica ribeirinha, com atuação voltada ao mapeamento, formação e geração de renda para esses artistas.

A iniciativa integra o Circular Campina Cidade Velha, que reúne cerca de 40 espaços culturais em diferentes pontos da capital paraense.

Serviço: Abertura do Canto do Letras, sede do Instituto Letras que Flutuam Data: 12 de abril Horário: 9h às 13h Endereço: Travessa Rui Barbosa, 257, sala 3, Vila Prana, bairro da Campina, Belém


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