Gastronomia

Comida é encontro: como a gastronomia constrói identidade em territórios em transformação

Pesquisador reflete sobre como a gastronomia organiza encontros, traduz territórios e ajuda a formar identidades em cidades marcadas pela migração

Pesquisador da gastronomia brasileira e curador de projetos que articulam cultura, território e alimentação, Marcos Médici atua há mais de uma década na construção de narrativas que pensam a cozinha para além do prato. Sua trajetória passa pela criação e desenvolvimento de iniciativas que conectam gastronomia, comunicação e identidade cultural, com foco na valorização de quem está por trás da comida — dos cozinheiros aos produtores.

À frente da curadoria do Canaã Gastronomia, Médici trabalha a partir de um princípio simples: comida é encontro. Em cidades marcadas pela migração, como Canaã dos Carajás, no sudeste do Pará, ele observa a gastronomia como um campo em construção, onde diferentes origens, técnicas e referências se cruzam e ajudam a formar uma identidade coletiva. Mais do que organizar um evento, sua atuação busca estruturar uma leitura sobre o território e dar visibilidade às histórias que sustentam essa cozinha.

A convite da Rede Pará, o pesquisador assina o artigo a seguir, em que reflete sobre o papel da gastronomia na construção de identidade em cidades formadas por múltiplas origens. Marcos Médici é curador do Canaã Gastronomia, festival realizado até o dia 3 de maio, no Parque de Eventos Mayko Goulart, em Canaã dos Carajás, com entrada gratuita. Confira o artigo:

ARTIGO DE OPINIÃO | Por Marcos Médici

A gente costuma olhar para a gastronomia como aquilo que está no prato. Mas, na prática, comida é encontro. É a forma mais direta que existe de reunir histórias, trajetórias e culturas diferentes dentro de um mesmo espaço.

Quando pensamos em cidades como Canaã dos Carajás, isso fica ainda mais evidente. Estamos falando de um território construído por pessoas que vieram de diferentes partes do Brasil — Pará, Maranhão, Goiás, Minas Gerais, Rio Grande do Sul. Cada uma dessas pessoas traz consigo uma forma de cozinhar, de se relacionar com o alimento, de entender o que é comida.

O que acontece ali não é uma mistura aleatória. É um processo de construção de identidade. E a gastronomia tem um papel central nisso, porque ela organiza essas diferenças, transforma diversidade em linguagem comum.

Existe também uma ideia equivocada de que inovação na cozinha significa romper com a tradição. Não significa. Inovar, muitas vezes, é olhar com mais profundidade para aquilo que já existe. A Amazônia é sofisticada por si só. O desafio é não reduzir essa complexidade a caricaturas.

Quando a gente fala de gastronomia amazônica, não dá para dissociar isso de território, de floresta, de rios e, principalmente, de quem produz. Durante muito tempo, esse debate foi feito pela metade. Falava-se do prato, mas não se falava de quem sustenta esse prato.

E aí entra uma questão que não pode mais ser ignorada: não existe gastronomia sem sustentabilidade. E não no sentido de discurso, mas de prática. É sobre reconhecer quem está na base, valorizar o produtor, respeitar o ciclo natural e entender que essa cadeia é o que garante o futuro dessa cozinha.

Quando um festival como o Canaã Gastronomia se propõe a olhar para isso, ele deixa de ser apenas um evento. Ele passa a ser uma ferramenta de construção de identidade, de fortalecimento econômico e de reconhecimento cultural.

No fim das contas, o que está em jogo não é só o que a gente come. É como a gente se reconhece enquanto território.


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