Alerta
Em um mundo cada vez mais acelerado, em que a rotina exige produtividade constante, a dor costuma ser tratada como um incômodo passageiro, algo a ser silenciado com um analgésico e ignorado. Mas esse “deixar pra lá” pode trazer consequências sérias e prolongadas. O alerta é do médico fisiatra Carlos Costa, professor do curso de pós-graduação em Clínica da Dor da Afya Educação Médica Belém.
“A melhor forma de tratar a dor é de maneira individualizada. Não existe uma receita pronta. Uma anamnese minuciosa é essencial para identificar as causas e também fatores comportamentais que contribuem para que a dor se torne persistente”, explica.
A dor crônica, inclusive, passou a ser reconhecida oficialmente como doença a partir de 2022, com a inclusão no CID-11 (Classificação Internacional de Doenças). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 30% da população sofre com dor crônica. Além de comprometer a qualidade de vida, o problema também está associado a transtornos como ansiedade e depressão. No Brasil, a realidade é semelhante. Um levantamento do Ministério da Saúde indica que 37% dos brasileiros com mais de 50 anos convivem com dores crônicas. Entre eles, cerca de 30% utilizam opioides, medicamentos analgésicos potentes que atuam no sistema nervoso para reduzir a percepção da dor e aliviar o sofrimento.
Além dos aspectos físicos, fatores emocionais têm papel decisivo nesse cenário. Ansiedade e depressão, antes vistas apenas como consequências, hoje também são compreendidas como causas ou agravantes da dor. “Essas condições estão relacionadas à redução de neurotransmissores como serotonina e noradrenalina, que atuam na modulação da dor. Pacientes com histórico emocional delicado tendem a apresentar menor tolerância e maior risco de dores crônicas”, destaca o médico.
O tratamento, portanto, vai além da medicação. Envolve mudanças no estilo de vida, como a prática regular de exercícios físicos, sono de qualidade, alimentação equilibrada e estratégias para reduzir o estresse.” Costumo dizer que 70% do tratamento dependem do paciente. Os outros 30% envolvem intervenções médicas e orientações. É um processo que exige consciência e adesão”, reforça o Dr. Carlos Costa.
A história da auxiliar de serviços gerais, Elisa Cristina Cardoso Lima, ilustra bem os riscos de ignorar os sinais do corpo. Há cerca de um ano, ela voltou a sentir dores intensas nos joelhos, um problema que já havia enfrentado anteriormente. “Eu pensava que era reumatismo e fui levando. Tomava remédio, passava um mês, dois meses, e nada melhorava. Chegou um ponto em que eu não estava mais conseguindo andar”, relata.
A situação só mudou quando, por indicação de uma amiga, ela decidiu procurar atendimento especializado. “No primeiro dia, eu estava com muita dor, chorando. Fizeram um procedimento para retirar o líquido do meu joelho. Na mesma hora senti um alívio. Ali mesmo comecei a andar melhor”, conta.
Apesar da melhora, Elisa ainda convive com algumas limitações. “Hoje eu já consigo andar, mas ainda sinto dor às vezes, principalmente quando chove. Mesmo assim, mudou muito. Antes era sofrimento o tempo todo”, revela.
Para o Dr. Carlos Costa, casos como o de Elisa são mais comuns do que se imagina e reforçam um ponto essencial: dor recorrente ou persistente não deve ser ignorada. “A sensação de dor quando chove ou sentir dor em estímulos que geralmente não causariam é um dos sinais de cronificação da dor, que se chama alodinia Trata-se de uma adaptação do sistema sensorial devido a estímulo doloroso elevado e contínuo. Toda dor merece atenção. Quando ela se torna frequente, cíclica ou não responde a tratamentos simples, é fundamental investigar. Quanto mais tempo a dor persiste, mais difícil pode ser o tratamento”, alerta.
Ele também chama atenção para a cultura da automedicação, bastante presente no dia a dia. O uso indiscriminado de analgésicos pode mascarar sintomas importantes e atrasar diagnósticos. A dor é um sinal de que algo não está em equilíbrio.”
No fim das contas, a mensagem é direta: ouvir o próprio corpo pode ser o primeiro passo para evitar problemas maiores. Como resume o médico: “A saúde é o silêncio do corpo. Quando ele fala, por meio da dor, é um pedido de ajuda que não deve ser ignorado.”
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