Cultura

Entre Carimbó, Marabaixo e Tambor de Crioula, TRAVESSIA traça rota do Tambor de Mina pela Amazônia

Lançado em agosto, projeto conecta Pará, Amapá e Maranhão a partir de uma fé preta e cabocla. Circuito inédito reúne intercâmbio entre terreiros e manifestações culturais dos três estados

Preta e cabocla, uma fé que reúne santos, voduns, orixás e encantados atravessa a cultura da Amazônia. É nesse universo sincrético e ancestral que nasce o TRAVESSIA – Tambor de Mina pelas Águas da Amazônia Legal. O projeto, lançado em agosto, cria uma rota de intercâmbio entre Pará, Maranhão e Amapá, colocando em contato terreiros, sacerdotes, tocadores, artistas e manifestações culturais dos três estados.

O tambor dá o pulso dessa jornada. No Pará, o toque da Mina encontra o Carimbó; no Amapá, o Marabaixo; no Maranhão, o Tambor de Crioula. E eles não estarão apenas lado a lado na programação: os tocadores da Mina participam dos toques das manifestações locais, colocando em diálogo diferentes heranças negras que moldam a cultura amazônica.

Essa conexão vai além do instrumento e ajuda a lançar luz sobre a presença negra na formação cultural da região. “Em todos esses contextos, tanto na religiosidade do Tambor de Mina quanto no Carimbó, no Marabaixo e no Tambor de Crioula, existe o uso do tambor, mas não é somente o instrumento. Existe um contexto social. São manifestações praticadas historicamente e ainda hoje por pessoas majoritariamente pretas”, afirma Daniel ADR, idealizador do TRAVESSIA e sacerdote do Ilê Axé Akoro de Omilodé, em Belém.

“Mesmo que uma esteja mais ligada à liturgia religiosa e as outras à cultura popular, esses caminhos se encontram na ancestralidade e na importância dos povos negros e africanos para a sociedade que conhecemos hoje”, completa.

Contemplado pelo Programa Funarte de Difusão Nacional – Circuito Pixinguinha de Música, na modalidade Médio Circuito, o TRAVESSIA é realizado pelo Ilê Axé Ogum Sobô, de São Luís, e pelo Ilê Axé Akoro de Omilodé, de Belém, com produção da Araí Cultura.

Do toque à encantaria

Nascido no Maranhão a partir de matrizes religiosas africanas, o Tambor de Mina ganha na Amazônia uma feição profundamente ligada ao lugar. Aos voduns e orixás somam-se caboclos e encantados, em um universo religioso que também estabelece diálogos com a pajelança e outras cosmologias presentes na região. É nesse encontro que a Mina revela uma de suas faces mais particulares: uma fé afro-brasileira que, em terras amazônicas, incorpora outras maneiras de compreender e experimentar o sagrado. E é pelo toque, pelo canto e pela dança que esse mundo também se manifesta. 

Essa diversidade orienta o circuito. Em cada cidade, haverá uma oficina de toque de Tambor de Mina, outra de culinária ancestral e uma conversa entre sacerdotes sobre tradição oral e a continuidade dos saberes da religião. A agenda inclui ainda dois dias de toques: um voltado a Orixás, Voduns e Gentis e outro à encantaria.

O circuito também se abre para as expressões culturais de cada estado: Carimbó em Belém, Tambor de Crioula em São Luís e Marabaixo em Santana, além da apresentação de um grupo musical local. É nesse momento que os tocadores da Mina também participam do toque da manifestação anfitriã.

Encurtar distâncias

Reunir religiosos de Pará, Maranhão e Amapá em uma mesma circulação é também uma das forças do TRAVESSIA. As distâncias amazônicas, os custos e as limitações de deslocamento tornam pouco frequente uma convivência que o projeto transforma em três etapas de troca presencial. Para quem já compartilha referências, práticas e vínculos pela fé, a travessia cria a oportunidade de estar junto.

“Apesar de serem estados próximos, geograficamente eles nos tornam mais distantes. Fazer esse intercâmbio, essa aproximação, é fundamental para que haja diálogo entre esses territórios amazônicos”, afirma Daniel.

Essa relação também atravessa a história do próprio idealizador. Paraense e sacerdote em Belém, Daniel é filho de santo de um sacerdote de São Luís. A experiência de uma fé capaz de criar vínculos para além das fronteiras estaduais encontra nas águas uma imagem para pensar a circulação pela Amazônia.

“As águas não são os espaços que separam. Existe uma transição, uma travessia”, diz. “O projeto surge dessa conexão entre o meu pertencimento dentro do Tambor de Mina e a forma como consigo enxergar esses trajetos através das águas.”

Serviço

TRAVESSIA – Tambor de Mina pelas Águas da Amazônia Legal

Santana (AP): 27 a 29 de novembro de 2026 — Tambor de Mina e Marabaixo São Luís (MA): 18 a 21 de janeiro de 2027 — Tambor de Mina e Tambor de Crioula Belém (PA): 16 a 18 de abril de 2027 — Tambor de Mina e Carimbó

Programação: oficina de toque de Tambor de Mina, oficina de culinária ancestral, conversa com sacerdotes sobre tradição oral, toques para Orixás, Voduns e Gentis e para a encantaria, apresentações culturais e shows de grupos locais.

Realização: Ilê Axé Ogum Sobô e Ilê Axé Akoro de Omilodé Produção: Araí Cultura


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