Inovação

Paragominas será a primeira cidade do interior do Pará a implantar ecossistema local de inovação

Da sala digital da UPA às telas digitais nas escolas: para a secretária de Planejamento, Débora Mariane, "Paragominas não só inova, mas tem gente interessada que vai fazer acontecer na prática"

Paragominas entrou, na noite de quarta-feira (21), no mapa nacional da inovação. No auditório do IFPA – Campus Paragominas, o Sebrae lançou oficialmente no município a metodologia Eli (Ecossistemas Locais de Inovação), que passa a ser implantada na cidade — a primeira do interior do Pará e a segunda no estado, atrás apenas de Belém, a receber o programa, já presente em mais de 250 municípios brasileiros.

O objetivo é fortalecer a conexão e a governança entre os atores da chamada quádrupla hélice — poder público, instituições de ciência e tecnologia (como UFRA e IFPA), iniciativa privada e sociedade civil — para impulsionar o empreendedorismo e a inovação em Paragominas e na região do Capim.

A aula de história do prefeito Sidney Rosa

Na abertura do lançamento, o prefeito Sidney Rosa — de volta ao cargo no ano passado, após 20 anos — fez uma verdadeira aula de história sobre a vocação inovadora do município. Recordou que, em abril, Paragominas completa 30 anos da primeira colheita de soja do Pará — fruto de uma expedição a Balsas (MA), em 1995, de testes com 18 variedades de sementes e de uma cooperativa de 20 produtores que bancou os primeiros 350 hectares plantados no estado —, a virada de chave de 1997, quando a gestão municipal decidiu que nenhuma criança ficaria fora da escola e elevou a matrícula de cerca de 8 mil para mais de 18 mil alunos, e a articulação que transformou o depósito de bauxita do território na mineração que hoje emprega 3,3 mil pessoas — sempre, ressaltou, com o Sebrae como parceiro, presente no município desde 1997. "Aqui é o laboratório da agricultura do Pará", resumiu, antes de destilar a filosofia que costura essas histórias: nada vem de graça — o potencial está na terra, nos rios, na floresta e no subsolo, "mas tem que ter alguém obstinado para ir atrás". E projetou o futuro na mesma chave: telas interativas com inteligência artificial na formação dos professores ("se eles não se prepararem na sala de aula, o aluno vai mostrar pra gente"), a digitalização da saúde, iniciada naquela mesma semana, e a integração rodoviária com Tailândia. "O mundo mudou, o mercado mudou, o cliente mudou", avisou, lembrando que "o mundo roda 1.670 quilômetros por hora".

Criada pelo Sebrae em parceria com a Fundação CERTI e atualizada em 2024 pela Impact Hub, a metodologia parte de um diagnóstico: os atores da inovação já existem no território, mas atuam de forma fragmentada. Foi o que explicou o consultor Victor Ribeiro, que já implantou a metodologia em cinco municípios de Rondônia, na palestra "Eli – Ecossistema Local de Inovação: o caminho para Paragominas inovar". Para ele, "inovação não é necessariamente tecnologia": é fazer diferente, com resultados melhores, para resolver problemas reais.

Jornada até dezembro

A implantação terá uma sequência de oficinas: os workshops 1 e 2 acontecem em 27 e 29 de outubro, e os três seguintes em novembro e dezembro. Em 9 de dezembro está prevista a etapa final, com o lançamento do plano de ação, do diagnóstico do ecossistema e da governança que acompanhará os resultados, incluindo a medição do índice de maturidade da rede local.

Painel: da floresta e do campo para o futuro

A noite se encerrou com o painel "Inovação em Paragominas: da floresta e do campo para o futuro", mediado por Fabiano Andrade, do Sebrae, com a participação da secretária municipal de Planejamento, Débora Mariane (poder público); do empresário André Carlotto (setor produtivo); do professor da UFRA Marcos Braga (academia); e do empresário Sérgio Moreira (empreendedorismo).

Debora Mariane, servidora da prefeitura há 27 anos, avaliou que o município "caminha bem na inovação, mesmo que em situações isoladas", em todos os setores, lembrando que inovação "não se refere propriamente à tecnologia". Ela citou exemplos concretos da gestão: a sala digital instalada na UPA, em que um totem permite verificar 16 procedimentos em cerca de dois minutos — processo que antes chegava a levar uma semana — e a aquisição de telas digitais pela rede municipal de educação, para "compartilhar conhecimento em massa". A prefeitura também investe na integração de seus sistemas internos e lançará em breve a plataforma Invest Paragominas, de atração de investimentos e dados sobre a economia local.

"Quando a gente olha a academia, ela traz o conhecimento; a empresa identifica o problema; a gestão pública verifica as demandas coletivas — falta o agente que vai viabilizar tudo isso", avaliou. Como tarefa para o novo ecossistema, ela propôs a construção de uma agenda municipal integrada e fez questão de se comprometer: "como Secretaria de Planejamento, a gente se compromete a puxar uma ponta da corda".

No painel, o professor Marcos Braga evocou o Vale do Silício — nascido à sombra da Universidade de Stanford — e sugeriu que Paragominas tem condições de construir o próprio "Vale do Árvore", com tecnologia de ponta a serviço do agro e da floresta. Sérgio Moreira, cuja empresa de software para arquitetos e designers de interiores alcança cerca de 300 mil usuários em mais de 50 países, disse ser "exemplo claro de que não precisa sair de Paragominas para inovar": "já temos poder público, instituições de ensino, uma economia forte e empresas querendo crescer — o que falta é conectar", resumiu. André Carlotto, produtor rural radicado há 14 anos na cidade, destacou a aproximação crescente entre universidade e setor produtivo e cobrou o envolvimento dos jovens nos eventos de inovação.

Cultura também é inovação

A programação ainda reservou espaço para a cultura: o artista Bob Mídia, do movimento Paragorrimas, protagonizou uma batalha de rimas improvisada a partir de palavras propostas pelo público — como "inovação", "propósito" e "conexão" — para mostrar que a criatividade do interior também se alimenta de inovação. Bicampeão estadual da modalidade, ele se prepara para o terceiro Nacional consecutivo, levando, mais uma vez, o nome de Paragominas para longe.

Com o Eli, Paragominas quer transformar em rede o que hoje são iniciativas isoladas — e, se prevalecer o otimismo que tomou o auditório do IFPA, o case de sucesso que o Sebrae espera apresentar ao Brasil no ano que vem pode nascer mais perto do que se imagina.


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