Parque estadual
Foto: Ascom Ideflor-Bio
A Festividade do Divino Espírito Santo é comemorada anualmente no Parque Estadual Serra dos Martírios/Andorinhas (Pesam), na região do Araguaia, sudeste paraense. (Foto: Ascom Ideflor-Bio)
As manhãs despertam ainda nubladas na Casa de Pedra. Os fogos de artifício de “Seu Caroço”, que começam a estourar às 4 h da madrugada, marcam o despertar de mais um dia da Festividade do Divino Espírito Santo, comemorada anualmente no Parque Estadual Serra dos Martírios/Andorinhas (Pesam), na região do Araguaia, sudeste paraense.
A Festividade, iniciada no dia 19 de maio, com uma semana de duração, foi encerrada no domingo (2). Durante o evento, uma equipe técnica do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-bio) fez o monitoramento ambiental da Casa de Pedra, o Setor de Visitação 1 do Pesam.
A celebração ocorre há 30 anos, mantida por habitantes das comunidades que circundam a região do Araguaia, e tem o formato de romaria. Dias antes do início oficial (no domingo, dia 20) crianças, jovens, adultos e, principalmente, a população entre os 60 e 80 anos, subiram a Serra das Andorinhas até a Casa de Pedra, uma formação rochosa que fica a aproximadamente 570 metros acima do nível do mar.
A Casa é uma espécie de Igreja, onde são feitas as orações diárias ao Divino Espírito Santo, que integra a Santíssima Trindade. As famílias que sobem a Serra acampam em uma zona plana ao redor da Casa, onde montam ranchos de madeira, lona ou folhas secas, e vivem de forma comunitária durante toda a semana.
Preservação - O monitoramento ambiental feito pela Gerência da Região Administrativa do Araguaia (GRA/Ideflor-bio) garantiu, principalmente, a preservação do espaço do Pesam, que é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral. “O que buscamos é trabalhar com os romeiros para que, durante o evento, eles utilizem de forma consciente os recursos naturais do espaço, evitando cortar madeira, produzir resíduos sólidos em excesso e dar destinação adequada ao resíduo produzido, por exemplo”, informou Evandra Vilacoert, gerente da Região Administrativa do Araguaia.
Além das atividades de monitoramento e fiscalização do uso dos recursos naturais, o Ideflor-bio realizou, durante a Festividade, cadastramento dos romeiros e ações de educação ambiental, culturais e de infraestrutura na área. Uma das ações é a implantação do sistema de abastecimento de água para os acampamentos.
“Nós implantamos um sistema que traz água de uma nascente do Pesam para o acampamento. Esse sistema é formado por um motor-bomba, cerca de 800 metros de tubulação para o transporte da água e uma caixa d'água, onde se armazena e distribui a água aos romeiros. A utilização desse recurso também é monitorada pela equipe”, explicou Silviane Miranda, técnica do Ideflor-bio. Antes da implantação do sistema, os romeiros andavam diariamente 800 metros para pegar água na nascente.
A equipe do Ideflor-bio também fez a análise galvanométrica do lixo produzido por cada acampamento. Essa análise permite levantar dados sobre a quantidade e o tipo de resíduo produzido pelos romeiros durante a semana. “Nós comparamos esses dados com as informações dos anos anteriores, o que possibilita criar um histórico do uso da água e da produção de resíduos durante a Festividade”, disse Silviane Miranda.
Educação ambiental – Após a programação religiosa diária, realizada pela manhã, à tarde e à noite, o Ideflor-bio promoveu uma programação cultural e de educação ambiental para romeiros de todas as idades, abordando diversos temas.
Em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) foram realizadas atividades de ginástica laboral, oficinas de desenho e pintura, produção de objetos com garrafas pet e de mandalas alusivas ao Divino Espírito Santo. Também foram ministradas palestras sobre temas de interesse ambiental, como importância da água, bom uso dos resíduos sólidos e biodiversidade do Pesam, com ênfase nas cavernas que o Parque abriga e os quelônios amazônicos que vivem na região.
A programação também teve momentos lúdicos, quando os servidores Marcio Eokin e Gilton Moura, da Diretoria de Ordenamento, Educação e Descentralização da Gestão Ambiental (Diored/Semas), dirigiram e apresentaram peças teatrais, teatro de mamelungos e a performance do Palhaço Tio Arroz. Em meio a gargalhadas, as crianças aprenderam mais sobre os bichos que habitam a caverna, os danos causados pelas queimadas e os benefícios do uso consciente dos recursos naturais.
Para Gilton Moura, “essas ações lúdicas e educativas são fundamentais, pois favorecem uma proximidade com a comunidade e estabelecem discussões sobre a importância da floresta e da área conservada com os habitantes locais, jovens e adultos, apontando o papel deles na conservação da natureza. Além disso, todas essas ações mostram para os romeiros que eles não estão abandonados, que o Governo, por meio do Ideflor-bio e da Semas, está ao lado deles”.
História – A origem da Festividade tem várias versões. Segundo uma delas, a Casa de Pedra foi encontrada por exploradores conhecidos como galegos, na década de 1960. O agricultor Teodomiro Pereira, da região de São Geraldo do Araguaia, que participou da expedição junto com os galegos, fez em 1974 um voto em nome de uma amiga chamada Conceição, que à época sofria com sintomas de depressão.
“Nós viemos pra cá pagar esse voto. Era para ela (Conceição) vir descalça desde a estrada de Marabá até a Casa de Pedra, um percurso de aproximadamente 06 km. Ela passou mal, e então nós ficamos aqui, trouxemos os animais, dormimos na terra e de manhã rezamos o terço. Depois ela ficou boa. Daí pra cá vieram os outros romeiros, a dona Zefona, seu Raimundo Caroço e outros romeiros”, contou Maria Pereira, 58 anos, romeira e filha de Teodomiro.
Dona Zefona é uma personagem central na história da Festividade do Divino Espírito Santo. A ela é creditado o início da tradição de levar a Divindade e o Estandarte na romaria, e depositá-los no altar natural formado na Casa de Pedra, a partir de 1986.
Cada família de romeiros – muitos deles acompanham a Festividade desde seu surgimento – leva, na subida, uma imagem do Divino Espírito Santo, uma bandeira com o símbolo do Divino e faixas coloridas. Essas divindades e bandeiras identificam as famílias de romeiros, e são repassadas às próximas gerações. “Esse ano nós estamos com cinco divindades, mas já chegamos a ter 12”, disse Raimundo Caroço, 65 anos, guardião das tradições do evento.
O ritual da Festividade conta com três momentos de oração: o levantamento e a derrubada do mastro do Divino – um tronco com uma bandeira do Divino Espírito Santo no topo -, e a chegada das divindades, quando as famílias que já estão no acampamento, e aquelas que chegam, mostram uma espécie de dança, cujos passos são os movimentos entrelaçados dos estandartes.
As orações são cantadas. Há uma música para abrir os trabalhos, para lembrar os mortos e para encerrar o dia de oração. "Seu" Raimundo Caroço contou que as melodias são tradicionais e foram passadas de pai para filho. Acompanhando as letras, cantadas por diversos romeiros, estão os tambores de Raimundo Caroço e de “seu” Bráz, além da sanfona de “seu” Lázaro.
Outro ponto importante do ritual é a oração no Campo Santo, a alguns metros da Casa de Pedra, onde estão enterrados dois filhos de Raimunda Araújo, 73 anos, filha de dona Zefona. A reza no Campo Santo é feita à tarde, apenas uma vez, nos últimos dias do festejo. Raimunda, ajoelhada atrás dos túmulos dos filhos, chora enquanto os outros romeiros entoam o cântico.
À exceção da oração no Campo Santo, os rituais se repetem diariamente até o “derradeiro dia”, quando é derrubado o mastro. No dia seguinte, os romeiros desmontam o acampamento, juntam seus pertences e descem a Serra, com a promessa de sempre voltar, como diz o cântico: “Se nós sê vivo para o ano, para Vós nós volta a cantar...”
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