Cultura
AXXII Feira do Livro vai até domingo, dia 10 de junho, no Hangar – Convenções e Feiras da Amazônia, em Belém. (Foto: MARCELO LELIS / AG. PARÁ)
"Precisamos estar preparados para garantir nossos direitos e para isso precisamos de uma educação diferenciada”, disse a cacique Kátia Silene Valdenilson, a primeira das tribos Gavião no Pará, durante a mesa redonda desta quinta-feira (7), na XXII Feira Pan-Amazônica do Livro. Originalmente chamada Tônkyre Akrãtikatêjê, ela conta que teve que mudar de nome por falta de conhecimento do pai e da ausência de políticas públicas destinadas à garantia do registro do nome indígena.
Ao lado da cacique Kátia Silene (PA), a professora Takwyiti Hontryti (PA) e a doutora em Linguística Altaci Rubim (AM), o encontro abordou a formação educacional indígena. Kátia Silene iniciou no ano de 2014, em Marabá, uma ideia pioneira em educação indígena. A escola Ronoré não tem paredes de concreto ou cadeados nas portas e a forma de educar é baseada na liberdade. “O homem branco se pergunta, por que o indígena quer tanto uma escola dentro da aldeia? Porque precisamos estar preparados para saber nossos direitos”, explica a cacique.
Segundo a professora Takwyiti, existe um estereótipo equivocado sobre o indígena. “Índios e índias têm muita curiosidade, muita sede por conhecimento. Não queremos ser mantidos isolados, queremos que nossa cultura seja respeitada”, defende a professora. Ainda segundo a docente, a escola Ronoré foi reconhecida pela Secretaria de Educação (Seduc). “Agora o novo desafio é conseguir através do órgão responsável a produção de material didático específico para os alunos indígenas”, alerta.
Fortalecimento da cultura
Manaus é um município que aponta avanços em relação ao material didático dedicado a formação educacional indígena. Essa e outras experiências de êxito foram apresentadas por Altaci Rubim, descendente da tribo Kokama. Tabuleiro com peças recicladas, que ensina lógica e números através de um jogo onde o objetivo é encurralar uma onça na floresta; livros didáticos com exercícios para aprender a língua do povo Kokama; história em quadrinhos; mascotes; camisas; vestidos e canecas com a temática da etnia e até um aplicativo tradutor do português para o dialeto foram desenvolvidos por Altaci. Tudo com o objetivo de preservar a cultura de seu povo.
O aplicativo “Kokama tradutor” é destinado aos smartphones com dispositivo Android e dispõe de mais de 900 palavras da língua Kokama. O app está disponível no play store e também funciona off-line. “Como a nossa língua está em processo de fortalecimento, o nosso povo discutiu em assembleia e decidimos em que a nossa língua precisava ocupar espaços. Não somente o espaço da escola, o espaço da aldeia, mas nos livros didáticos e também espaços virtuais. Como muitos de nós temos acesso ao celular, pensamos também em colocar a língua nessa plataforma”, explica a indígena que desenvolveu o aplicativo.
Pela tarde o Papo Cabeça foi com o designer Carlos Ruas, criador das tirinhas online mais acessadas do Brasil. Diante de um auditório lotado, com bastante irreverência e muito humor, o autor conversou sobre sua carreira e sátiras em quadrinhos. Pela segunda vez na Feira, Carlos Ruas revela ter se apaixonado pela cidade. “Ano passado eu vim por conta própria ao saber da força da Feira Pan-Amazônica e, para minha surpresa, foi um grande sucesso. Este ano fui convidado pela organização do evento, o que me deixou muito feliz, pois eu realmente me apaixonei por Belém, pela culinária, cultura, por tudo. Estou muito feliz por estar de volta”, declarou.
Encontro Literário
Uma nova forma de educar foi o tema desta quinta-feira (7) que teve como atração principal o escritor e professor Celso Antunes. Paulista, formado em geografia e mestre em educação pela Universidade de São Paulo (USP), ele é autor de mais de 180 livros didáticos e tem obras traduzidas na Argentina, México, Peru, Colômbia, Espanha e Portugal, onde também já ministrou palestras sobre educação.
Para o autor, uma educação de qualidade é aquela que se desenvolve através de três dimensões essenciais: desenvolver nos alunos capacitações para aprender, aprimorar suas capacidades de relações interpessoais e estimular sua inteligência para que possa assumir diferentes competências no cotidiano. A transformação passa também, necessariamente, por um reconhecimento da importância do papel do professor na sociedade. “Todas as profissões são importantes, mas algumas delas cuidam do presente, a educação prepara o amanhã, planta o futuro”, define.
Às 20h30, o público conferiu o show “Carimbozada”, de Mestre Damasceno e Grupo Senta e Peia. Nascido em Salvaterra, no arquipélago do Marajó, pai de nove filhos, cego desde os 19 anos de idade e morador da comunidade quilombola de Vila de Mangueiras, Damasceno recebeu em 2010 o “Prêmio Maria Isabel” do Ministério da Cultura.
Além de ser criador do "Búfalo-Bumbá" de Salvaterra, possui mais de 400 composições, entre toadas de boi-bumbá, carimbós, xotes, chulas, sambas e até bregas. Ele também já foi tema do documentário "Mestre Damasceno - o Resplendor da Resistência Marajoara", de Guto Nunes.
Programe-se
A sexta-feira, 8, inicia com a última escola a se apresentar na Gincana Literária. Em seguida será divulgado o resultado e a premiação. Às 15h, o Papo Cabeça tem Celso Antunes como convidado, que vai falar sobre “Como ensinar valores, estimular inteligência e discutir as emoções”.
Epaminondas Gustavo faz um stand-up no auditório Benedito Nunes a partir das 18h. O encontro literário de sexta será com Geovani Martins. Ele nasceu em 1991, em Bangu, no Rio de Janeiro, morou na Rocinha e vive atualmente no Vidigal. Trabalhou como homem-placa, atendente de lanchonete, garçom em bufê infantil e em barraca de praia.
Em 2013 e 2015, participou das oficinas da Festa Literária das Periferias. Publicou alguns de seus contos na revista Setor X e foi convidado duas vezes para a programação paralela da Festa Literária Internacional de Parati.
A programação terá, ainda, um projeto que tem o objetivo de garantir a acessibilidade na literatura de forma criativa e o acesso à educação e cultura de forma democrática, será tema de mesa de debate. O encontro terá o objetivo de discutir a importância da acessibilidade, além de apresentar para a sociedade um pouco do cotidiano e convivência de uma pessoa com deficiência visual.
A mesa será conduzida por Joana Martins, coordenadora do “Projeto Lamparina Acesa: Literatura Acessível”, que integra o núcleo de pesquisa Culturas e Memórias da Amazônia (Cuma), da Universidade Estadual do Estado do Pará (Uepa), que realiza cursos e oficinas ministrados por cerca de 30 voluntários, todos dos cursos de graduação da universidade estadual, além de promover a pesquisa na linguagem de sinais.
O projeto surgiu em 2015 com a proposta de disponibilizar obras da literatura amazônica, na forma de livro falado e outras tecnologias, às pessoas com deficiências visuais. Voluntários percorrem a feira orientando deficientes sobre as obras. Às 20h30, Jorge Hegues e o Boi de Orquestra Chamegoso fazem o show “A ópera do Bumbá” dentro da Mostra Pan-Amazônica de Música.
AXXII Feira do Livro vai até domingo, dia 10 de junho, no Hangar – Convenções e Feiras da Amazônia, em Belém. A entrada é gratuita e a programação completa pode ser conferida no site feiradolivro.pa.gov.br.
Colaboração: Roberta Brandão – Golgan
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