Lançamento

Músico trans da Amazônia, Flor de Mururé lança single e clipe “Dona Mulambo” e faz da música uma oferenda

‘A fé preta é instrumento de sobrevivência de corpos trans’, diz paraense que lança música e vídeo nas plataformas digitais nesta sexta-feira, 10. “Dona Mulambo” é o abre-alas do primeiro disco do artista, CROA

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Exú Mulher, Dona Mulambo é a pombagira que tira seus filhos da sujeira, e os conduz à força, à coragem e ao renascimento. É entidade de reconstrução e amor. Para falar dessa fé preta e cabocla como instrumento para se manter de pé no país que mais mata pessoas trans no mundo, Flor de Mururé, artista T e amazônida, abre caminhos nesta sexta-feira, 10, e lança o single e o clipe “Dona Mulambo”. O projeto tem patrocínio da Natura Musical e do Governo do Estado via Lei Semear e Fundação Cultural do Pará, com produção executiva da Psica Produções.

“Dona Mulambo” foi escolhida para apresentar ao público o disco de estreia de Flor, batizado de CROA, que chega às plataformas digitais ainda este mês. Neste trabalho inédito, o artista traz suas vivências como homem trans e a relação de afeto e sobrevivência de corpos dissidentes através das religiões de matrizes africanas e originárias, que celebram orixás, voduns e encantados.

Com levada de Tambor de Mina, e participações do Trio Manari na percussão, do suíço Thomas Rohrer na rabeca e produção musical de André Magalhães, “Dona Mulamba” mostra a força da sonoridade popular e dos terreiros do Pará e do Maranhão, com as bênçãos de Mãe Rosa de Luyara de Oyá, em áudio captado durante gira no Terreiro Rainha Bárbara Soeira e Tóy Azaká - Casa de Santo dedicada a pessoas LGBTQIA+ no subúrbio de Belém, capital do Pará.

“Imagina ser trans na Amazônia, periferia do país que mais assassina pessoas trans no mundo e que, ao mesmo tempo, é o que mais consome pornografia trans no planeta?”, provoca o artista, que deixou a própria casa ainda adolescente, em busca de sobreviver às tensões familiares. Nesse contexto hostil, Flor se volta à arte e se aproxima da fé afro religiosa.

Na invenção genuína de seu lar e de pertencimento, Flor ganha irmãos e acolhida no terreiro de Tambor de Mina encabeçado por uma travesti, a Mãe Rosa de Luyara. “O nosso corpo é marginalizado em todos os lugares e ambientes. Essa é a verdade. A gente não tem espaço nem para o espiritual. Então, quando eu me deparo com a Mãe Rosinha, vejo nela um corpo trans, minha imagem e semelhança. Sinto que ali poderia seguir o meu caminho”, diz.

Lugar de resistência, o terreiro é frequentado por pessoas LGBTQIA+ que se tornaram fundamentais para erguer CROA. Do single “Dona Mulambo”, participam as artistas trans Anastácia Marshelly, Valesca Minaj e Mulambra. “A gente sofre muitas retaliações, é mal visto. Mas pode entrar na Casa a pessoa que for, que ninguém vira as costas, a gente ajuda. Imagina o mundo contra nós, e a gente abraçando e perdoando. A nossa capacidade de perdão é muito grande para poder existir no mundo”.

O clipe, com direção artística de Flor de Mururé e Cabron Studios, traz imagens das festas no terreiro, seus corpos trans em gira, imagens de bastidores da gravação da música, cenas dos artistas em visita a regiões ribeirinhas da Amazônia e trechos de shows realizados em Belém: uma compilação da potência e da trajetória de insistência e arte do músico paraense, de apenas 23 anos.

Confira o clipe Dona Mulambo: https://www.youtube.com/watch?v=iDRG_ktmjX0