Mobilidade na Amazônia
Belém, cidade da COP30, pedala por necessidade, resistência e futuro. Um relatório recente sobre mobilidade ativa na capital paraense mostra que a bicicleta é o principal meio de transporte de trabalhadores e trabalhadoras de baixa renda, além de ter um uso crescente entre mulheres, que vêm ocupando as ruas da cidade com coragem — apesar da falta de infraestrutura e segurança.
O levantamento, realizado em 2024 por organizações locais de mobilidade ativa, analisou o fluxo de ciclistas em pontos estratégicos da cidade, como a Avenida Almirante Barroso, a Avenida Augusto Montenegro e a Travessa Mauriti. Os dados apontam que os horários de pico de circulação coincidem com o início e o fim do expediente de trabalho — entre 6h e 8h e 17h e 19h —, o que indica que a bicicleta é, para muitos, a única alternativa acessível ao transporte público.
Pedalar é sobreviver
Em uma cidade onde o transporte coletivo é caro e irregular, o pedal tornou-se instrumento de sobrevivência. O relatório mostra que 30% dos ciclistas trabalham com entregas, vendas ambulantes ou transporte de mercadorias, e que o uso cotidiano da bicicleta é mais intenso nas áreas periféricas.
“Essas pessoas pedalam não porque está na moda ou porque querem reduzir a pegada de carbono, mas porque é o que têm à disposição. O ciclismo em Belém é antes de tudo popular”, afirma Ruth Costa.
Mesmo com o aumento de ciclistas, Belém ainda possui menos de 70 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas, número insuficiente para o volume atual de deslocamentos. Em vários trechos observados, as bicicletas representavam até 10% do fluxo total de veículos, mas sem estrutura dedicada, o que eleva o risco de acidentes. Dados do Detran-PA mostram que, entre 2020 e 2023, foram registradas mais de 400 ocorrências envolvendo ciclistas.
Elas no pedal: mobilidade e coragem
Embora os homens ainda sejam maioria, a presença feminina tem crescido de forma consistente. As mulheres representaram entre 10% e 18% dos ciclistas contados nos principais pontos de observação, especialmente nas rotas de bairros periféricos e em áreas próximas a feiras, escolas e unidades de saúde.
“Elas enfrentam o medo e a insegurança todos os dias. Faltam ciclovias, iluminação e respeito no trânsito. Mesmo assim, seguem pedalando e mostrando que o espaço público também lhes pertence”, comenta Ruth Costa, coordenadora do Espaço Cultural Ruth Costa e integrante do Coletivo ParáCiclo.
Ruth é uma das lideranças à frente do evento “Pedalando por Justiça Climática, Equidade e um Futuro Sustentável Possível”, que acontece nos dias 14 e 15 de novembro, durante a COP30, com o apoio da União de Ciclistas do Brasil (UCB) e da Fundação Rosa Luxemburgo. O encontro será realizado na Yellow Zone, em Águas Lindas, e pretende conectar cultura amazônica, mobilidade antirracista e luta popular.
Pedalar é um ato político e climático
Durante o evento, as organizações vão entregar a Carta Manifesto “Pedalando por Justiça Climática, Equidade e um Futuro Sustentável Possível” às autoridades presentes na conferência. O documento reivindica infraestrutura segura, financiamento público e políticas que reconheçam a mobilidade ativa como eixo estratégico da transição ecológica.
A programação inclui o “Tacacá com Carimbó: o Sabor da Justiça Climática”, uma noite de cinema e debate sobre Tarifa Zero e direito à cidade, e a “Bicicletada Manifesto rumo à Marcha Global pelo Clima”, quando ciclistas da periferia ocuparão as ruas em defesa da Amazônia e de cidades mais justas.
“Não há transição justa sem mobilidade acessível e limpa. Pedalar em Belém é resistir — contra a exclusão, contra o modelo extrativista e pelo direito à cidade”, afirma Ana Carboni, da União de Ciclistas do Brasil (UCB).
Belém e a COP30: a bicicleta como símbolo de transformação
A coincidência entre o aumento dos ciclistas e a chegada da COP30 reforça a necessidade de colocar a mobilidade ativa no centro das discussões climáticas. O transporte é responsável por 44% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil, e a bicicleta é uma das soluções mais baratas e eficazes para reduzir essas emissões e melhorar a qualidade de vida urbana.
“Belém tem tudo para ser um laboratório vivo da transição justa: uma cidade amazônica que pedala, que se reorganiza e que desafia o modelo de transporte poluidor. É uma oportunidade histórica de fazer da bicicleta um símbolo do clima e da equidade”, resume Ruth Costa.
Números da mobilidade em Belém
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10% a 18% dos ciclistas são mulheres.
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30% usam a bicicleta como instrumento de trabalho.
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Menos de 70 km de ciclovias e ciclofaixas.
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400 acidentes com ciclistas entre 2020 e 2023.
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Transporte responde por 44% das emissões nacionais.
Serviço – Pedalando por Justiça Climática, Equidade e um Futuro Sustentável Possível
Espaço Cultural Ruth Costa – Águas Lindas (PA)
14 e 15 de novembro de 2025
Mais informações: instagram.com/p/DQca1TWiTXq