Ufra
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As eleições para a Reitoria da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) deveriam ser um espaço privilegiado para o debate de ideias, propostas e projetos para o futuro da instituição. No entanto, dois episódios recentes chamaram a atenção da comunidade acadêmica por exporem práticas que contradizem os valores que uma universidade pública deve defender: a misoginia e o etarismo.
O primeiro episódio ocorreu durante uma sessão do Conselho Universitário (CONSUN), quando a professora Eldilene Barbosa, candidata à Reitoria, foi alvo de uma manifestação considerada desrespeitosa e incompatível com o ambiente acadêmico. Diante de membros da comunidade universitária, um representante ligado à chapa adversária dirigiu à professora a expressão “cale a sua boca”, numa atitude que gerou indignação entre docentes, técnicos e estudantes.
Independentemente das divergências políticas ou eleitorais, o episódio levantou um debate importante sobre o tratamento dispensado às mulheres em espaços de poder e liderança. Em pleno século XXI, ainda são frequentes os casos em que mulheres são interrompidas, desrespeitadas ou tratadas com agressividade quando ocupam posições de protagonismo. O que aconteceu na UFRA foi visto por muitos como um exemplo claro dessa realidade.
Pouco tempo depois, outro fato trouxe à tona uma forma diferente de preconceito: o etarismo.
A candidatura do professor Nelson, vice na chapa de Eldilene Barbosa, foi alvo de um pedido de impugnação baseado no argumento de que ele possui 72 anos de idade e poderia atingir a aposentadoria compulsória durante o mandato. Embora a discussão tenha sido apresentada sob o aspecto jurídico, o episódio rapidamente gerou uma forte reação de parte da comunidade acadêmica e da sociedade, que interpretou a iniciativa como uma tentativa de desqualificar um candidato em razão de sua idade.

A repercussão ganhou ainda mais força após uma publicação do comunicador Ney Messias em seu perfil no Instagram. O post provocou amplo debate nas redes sociais sobre o preconceito etário e sobre a contradição de uma instituição dedicada ao conhecimento permitir que a idade de um professor com longa trajetória acadêmica se tornasse alvo de questionamentos políticos. Centenas de comentários passaram a discutir não apenas a situação específica do professor Nelson, mas também o tratamento dispensado a profissionais mais experientes em diferentes espaços da sociedade.
A mensagem transmitida por esse episódio foi resumida por muitos em uma frase simbólica: “Ele está velho demais”.
A questão levantou um debate relevante para toda a sociedade. Afinal, experiência, conhecimento acumulado e trajetória profissional podem ser considerados fatores negativos? Em uma instituição dedicada à produção e à transmissão do conhecimento, a valorização da experiência deveria caminhar lado a lado com a valorização da renovação.
O mais curioso é que os dois casos atingem justamente os integrantes da mesma chapa. De um lado, uma mulher que busca ocupar o principal cargo da universidade e que enfrenta manifestações consideradas machistas. De outro, um professor com décadas de serviços prestados à instituição que se vê questionado por sua idade.
São situações diferentes, mas que têm algo em comum: ambas desviam o foco das propostas e dos projetos para características pessoais dos candidatos.
Uma universidade é, antes de tudo, um espaço de reflexão crítica, diversidade e respeito. Por isso, episódios de misoginia e etarismo não podem ser tratados como algo normal ou como simples estratégias eleitorais. Eles merecem ser discutidos porque revelam preconceitos que ainda persistem, inclusive em ambientes que deveriam liderar a luta contra todas as formas de discriminação.
As eleições passam. Os resultados serão definidos pela comunidade universitária. Mas as lições deixadas por esses episódios devem permanecer como reflexão para toda a UFRA.
Se a universidade é o lugar do conhecimento, ela também precisa ser o lugar do respeito.
Porque não existe inovação sem diversidade. Não existe democracia sem respeito. E não existe universidade forte quando preconceitos falam mais alto que as ideias.
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