Educação
O que antes era considerado resíduo da produção agrícola pode se transformar em uma solução inovadora para um dos principais desafios enfrentados por comunidades rurais da Amazônia. Essa é a proposta do Umaní, projeto desenvolvido por estudantes do Centro Universitário do Estado do Pará (Cesupa) durante o Amazon Hacking 2026, programa de inovação que une tecnologia, sustentabilidade e impacto social para atender demandas reais da região amazônica.
A iniciativa surgiu a partir da imersão realizada na Vila Jutaiteua, localizada no município de Moju, no nordeste paraense. A comunidade quilombola e ribeirinha enfrenta dificuldades relacionadas à mobilidade, especialmente durante o período chuvoso, quando a lama dificulta o deslocamento de moradores e compromete o escoamento da produção agrícola.
Segundo a líder do projeto, a estudante de Ciência da Computação Ana Luiza Souto da Costa, a equipe identificou que os problemas de infraestrutura estavam diretamente ligados a outras dificuldades enfrentadas pelos moradores. “Nós percebemos que a falta de mobilidade rural era a raiz de vários outros problemas. As estradas precárias impediam o escoamento da produção local, especialmente do açaí e da farinha. Como os produtores não conseguiam vender tudo, os resíduos orgânicos acabavam se acumulando sem um descarte adequado. O Umaní surgiu justamente para transformar esse passivo ambiental em uma solução para a própria comunidade”, explica.
A proposta consiste na criação de um piso ecológico produzido a partir da combinação do caroço de açaí e da casca de mandioca, dois resíduos abundantes na região. A ideia foi desenvolvida de forma colaborativa por estudantes de diferentes áreas do conhecimento, reunindo competências de Arquitetura e Urbanismo, Ciência da Computação, Engenharia da Computação e Publicidade e Propaganda.
A estudante de Arquitetura e Urbanismo Agatha Machado conta que a solução surgiu após diversas discussões realizadas pela equipe. “Após a imersão, nos reunimos para avaliar as possibilidades e uma das ideias que ganhou força foi a criação de um piso drenante adaptado à realidade da comunidade. Eu e o Bruno Benetti sugerimos a utilização da casca de mandioca junto com o caroço de açaí, e o grupo abraçou a proposta”, relata.
O desenvolvimento do material exigiu uma série de estudos e testes laboratoriais para garantir sua viabilidade. A equipe contou com mentorias especializadas e o apoio técnico dos laboratórios do Cesupa. “Tivemos orientação de profissionais da área de Patologia das Construções para entender como trabalhar materiais com características tão diferentes. Também recebemos suporte dos técnicos Luiz Araújo e Warlley Martins, que nos auxiliaram na realização dos testes necessários”, destaca Agatha.
Para Ana Luiza, um dos maiores desafios tem sido justamente unir diferentes áreas do conhecimento em torno de uma solução inovadora. “Sendo da área de Ciência da Computação, mergulhar no desenvolvimento de um material físico voltado para a engenharia civil exigiu muito estudo. Precisamos compreender as propriedades mecânicas e químicas dos resíduos para garantir resistência, durabilidade e segurança. Transformar uma ideia sustentável em um produto viável tem sido um aprendizado constante”, afirma.
Além de melhorar a mobilidade em comunidades rurais, o projeto também busca gerar impactos sociais e econômicos. Com vias mais acessíveis, produtores poderão transportar suas mercadorias com maior facilidade, reduzindo perdas e fortalecendo a economia local. O piso ecológico também contribui para a redução do acúmulo de resíduos orgânicos próximos às residências.
“O impacto é imediato porque devolve dignidade às pessoas. Crianças deixam de faltar às aulas por causa da lama e os produtores conseguem escoar melhor seus produtos. Queremos contribuir para a independência econômica dessas comunidades, utilizando um material sustentável e acessível”, ressalta Ana Luiza.
Embora a proposta tenha sido pensada inicialmente para atender áreas rurais, a equipe acredita que a tecnologia pode ter aplicações em centros urbanos. “O modelo que estamos desenvolvendo pode ser adaptado para pisos intertravados, permitindo sua utilização também em áreas urbanas, inclusive na capital”, acrescenta Agatha.
A participação no Amazon Hacking também proporcionou importantes aprendizados aos estudantes. O programa, que está em sua quinta edição, tem como tema em 2026 a Agricultura Familiar Regenerativa e desafia os participantes a criar soluções voltadas ao fortalecimento sustentável das comunidades amazônicas.
“Aprendemos que a verdadeira inovação para a Amazônia não acontece apenas dentro dos laboratórios. Ela nasce da escuta das comunidades e da construção de tecnologias que façam sentido para quem vive essa realidade. Sustentabilidade e impacto social precisam caminhar juntos”, avalia Ana Luiza.
Para Agatha, a experiência reforçou a importância da valorização dos recursos e dos talentos da região Norte. “Depois de ouvir os relatos dos moradores da Vila Jutaiteua, percebemos que temos potencial para desenvolver soluções inovadoras utilizando recursos locais. Muitas vezes, o que falta é investimento e valorização da nossa região”, afirma.
Com a aproximação da etapa final do desafio, a equipe já projeta os próximos passos para o Umaní. A expectativa é ampliar os testes laboratoriais, buscar parcerias e implantar projetos-piloto em comunidades da Amazônia.
“O nosso objetivo é transformar o Umaní em uma tecnologia social replicável. Como o açaí e a mandioca fazem parte da realidade de diversos municípios da região Norte, existe um enorme potencial de expansão. Queremos contribuir para reduzir o isolamento de comunidades rurais e criar um novo modelo de infraestrutura sustentável para a Amazônia”, conclui Ana Luiza.
O projeto é desenvolvido pelos estudantes Agatha Machado e Bruno Benetti, de Arquitetura e Urbanismo; Ana Beatriz Nunes, Ana Luiza Souto da Costa, Carolline Mello, Carlos Sandro e Matheus Carvalho, de Ciência da Computação; Gabriel Gonçalves, de Engenharia da Computação; e Camilla de Miranda Launé, de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda.
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