Teatro
Em um momento em que o debate ambiental costuma ser dominado por previsões de colapso, destruição e esgotamento, o ator indígena Yumo Apurinã propõe uma pergunta diferente ao público: e se a crise climática também for uma crise de imaginação?
A reflexão está no centro do espetáculo "Ideias para adiar o fim do mundo", Idealizado pelo diretor e dramaturgo João Bernardo Caldeira. Inspirado na obra do líder indígena e escritor Ailton Krenak, a peça será apresentada nos dias 17, 18, 20 e 21 de junho na CAIXA Cultural Belém.
Em cena, Yumo interpreta a si mesmo: um homem do povo Apurinã que, após ser evangelizado durante a infância, tenta reconstruir sua relação com a ancestralidade. A partir de experiências pessoais e das reflexões de Krenak sobre humanidade, natureza e colonização, o espetáculo convida o público a questionar formas de vida que muitas vezes são naturalizadas no cotidiano.
"Talvez a crise climática seja também uma crise de imaginação. A gente está cercado por discursos sobre destruição, colapso e esgotamento, mas pouco se fala sobre a nossa dificuldade de inventar outras formas de existir, outros discursos, outras formas de nos relacionarmos com a terra e com o próprio conceito de humanidade", afirma Yumo.
A montagem não busca apresentar respostas prontas para questões complexas. Em vez disso, aposta na experiência teatral como espaço para provocar deslocamentos e abrir novas possibilidades de percepção.
"O que a gente está interessado é provocar uma experiência de deslocamento. Que o espectador saia se perguntando sobre os modos de vida que a gente vem naturalizando todos os dias, sobre os sistemas de violência herdados da colonização e sobre quais imaginários seguimos reproduzindo mesmo sem perceber", diz.
A obra também propõe uma reflexão sobre a separação entre humanidade e natureza, uma das bases do pensamento ocidental moderno segundo os criadores do espetáculo.
"Adiar o fim do mundo não depende apenas de preservar o planeta, mas de reinventar os modos como imaginamos a vida, o tempo, o coletivo e o futuro", afirma o ator.
Belém como território de diálogo
Para Yumo, apresentar o espetáculo em Belém possui um significado especial. Segundo ele, muitas das questões discutidas em cena fazem parte da experiência cotidiana de quem vive na Amazônia.
"Belém não representa para a gente apenas um cenário amazônico. É um território vivo, onde muitos dos impasses discutidos pela peça estão em curso. Questões como mineração, evangelização, disputa territorial e apagamento de saberes não aparecem para esse público como metáforas ou notícias distantes. São experiências presentes", afirma.
O ator destaca que a circulação da peça pela Amazônia não deve ser entendida como uma tentativa de levar reflexões para a região, mas como uma oportunidade de diálogo com um território que já produz pensamento e resistência há séculos.
"O espetáculo não leva reflexão para a Amazônia. Ele se coloca em confronto com um território que já produz pensamento, resistência e imaginação muito antes da peça existir. Essa relação é extremamente produtiva para nós."
Reflorestar imaginários
A montagem nasceu a partir de uma pesquisa desenvolvida pelo diretor e dramaturgo João Bernardo Caldeira sobre a presença de corpos dissidentes na cena teatral contemporânea e as transformações provocadas por artistas historicamente excluídos dos espaços de representação.
Foi nesse contexto que a obra de Ailton Krenak se tornou uma referência central para o projeto.
"A partir da obra do Krenak, me interessei por pensar aquilo que ele chama de 'clube seleto da humanidade', esse projeto de mundo que expropria territórios, coloniza e transforma a terra em recurso. O espetáculo busca olhar para outras cosmologias que podem oferecer alternativas a esse modelo", explica Caldeira.
A proposta ganhou novas camadas quando a trajetória pessoal de Yumo passou a integrar a dramaturgia. Histórias da infância do ator em Rondônia, memórias familiares e episódios de racismo vividos por ele passaram a dialogar diretamente com os temas abordados por Krenak.
"Sou constantemente colocado à prova. Meu corpo não corresponde ao 'índio' do imaginário da cidade, mas também não cabe em outras classificações. Ainda assim, sei quem sou: um Pupỹkary Apurinã. O pertencimento é o que me orienta", afirma.
Para os criadores, o teatro pode funcionar como um espaço para ampliar perspectivas e questionar narrativas dominantes sobre o Brasil.
"A peça parte da ideia de que muitos mundos precisaram ser silenciados para que uma única narrativa sobre o Brasil se tornasse dominante. Reflorestar os imaginários é abrir caminho para outras formas de pensar quem somos e os futuros que podemos construir", diz Caldeira.
Serviço
Ideias para adiar o fim do mundo
Datas: 17, 18, 20 e 21 de junho
Horário: 19h
Sessão extra: domingo, às 16h
Local: CAIXA Cultural Belém
Ingressos à venda aqui: https://www.bilheteriadigital.com/caixaculturalbelem
Atividade gratuita
Histórias para adiar o fim
Encontro entre Yumo Apurinã e a escritora indígena Márcia Kambeba
Data: 20 de junho
Horário: 16h
Entrada gratuita
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