Moda

O grafismo e os saberes ancestrais do Marajó ganham o mundo da moda.

Coleção de calçados inspirada no grafismo marajoara será apresentada em 23 de setembro, durante a Semana de Moda de Milão, aproximando a ancestralidade amazônica do design contemporâneo e abrindo novas perspectivas de valorização para artesãos da Ilha do Marajó

A riqueza cultural da Ilha do Marajó, no Pará, atravessa fronteiras e chega a um dos mais importantes centros internacionais da moda. No dia 23 de setembro de 2026, a marca DOTZ apresentará, durante a Semana de Moda de Milão, na Itália, uma coleção exclusiva de calçados desenvolvida em diálogo com artesãos marajoaras. A apresentação ocorrerá em uma programação sediada no Consulado-Geral do Brasil na Itália, reunindo representantes da moda, empresários, compradores, autoridades, imprensa e convidados brasileiros, italianos e de diferentes partes do mundo.

Além de levar produtos para uma vitrine internacional, a iniciativa propõe uma aproximação entre ancestralidade, criatividade, design, empreendedorismo social e desenvolvimento econômico, tendo o grafismo marajoara como elemento central. A coleção busca traduzir para a linguagem contemporânea da moda uma expressão artística profundamente ligada à identidade cultural da região.

O projeto reúne a DOTZ, o Instituto Costurando Sonhos Brasil, o Instituto Tucunaré e o G10 Favelas, em uma articulação que pretende ampliar a visibilidade dos artesãos paraenses e criar possibilidades concretas de geração de renda a partir dos conhecimentos tradicionais.

De uma iniciativa social para uma vitrine internacional

Em entrevista a coordenadora nacional do Instituto Costurando Sonhos Brasil, Suéli Feio, contou que a trajetória que resultou nessa coleção começou muito antes da chegada a Milão.

Segundo ela, o projeto nasceu em 2017, com a criação do Costurando Sonhos Brasil. Posteriormente, há cerca de três anos, a criação do Instituto Tucunaré, por sua irmã Bia, fortaleceu a proposta de potencializar o trabalho de artesãos e valorizar o imaginário cultural associado ao grafismo marajoara.

A construção, conforme relatado por Suéli, aconteceu de maneira gradual, por meio de pequenas ações voltadas à valorização da cultura e ao fortalecimento das pessoas que mantêm vivos esses conhecimentos.

O salto para a moda aconteceu a partir de uma conversa com Rodrigo, da DOTZ, quando surgiu a proposta de transformar os grafismos e referências marajoaras em uma coleção de calçados.

O resultado é uma coleção que procura fazer com que a tradição dialogue com tendências e formatos reconhecidos internacionalmente.

Quando a ancestralidade encontra o design

A proposta não é simplesmente reproduzir elementos tradicionais em um produto industrializado. O projeto busca estabelecer uma conversa entre os saberes ancestrais do Marajó e o design contemporâneo, utilizando referências do grafismo marajoara em modelos inspirados em clássicos da sapataria.

Entre as peças estão modelos como mocassins e sandálias transversais, com amarrações que percorrem as pernas, além de outros formatos trabalhados com estampas e bordados inspirados nos grafismos.

O destaque justamente é a combinação entre cultura e inovação: os grafismos marajoaras aparecem como elemento de identidade, reinterpretados para integrar produtos contemporâneos.

A produção envolve artesãos de Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó, conectando o território de origem da referência cultural ao produto que será apresentado internacionalmente.

Nesse processo, o calçado deixa de ser apenas um objeto de moda. Passa a carregar uma narrativa: a história de um território, o conhecimento de seus artesãos e a possibilidade de transformar patrimônio cultural em oportunidade econômica.

Da visibilidade à geração de renda

Um dos aspectos mais importantes destacados por Suéli Feio é que a presença em Milão não deve ser vista apenas como uma ação de divulgação.

O objetivo é fazer com que a repercussão internacional se transforme em negócios sustentáveis para os artesãos.

A intenção é avançar para uma produção em escala, garantindo que parte dos resultados econômicos retorne para a própria região e contribua para fortalecer as ações desenvolvidas pelo Instituto Tucunaré.

A perspectiva inclui capacitar ainda mais novas crianças, ampliar a participação de mulheres e formar novas pessoas nas técnicas relacionadas ao trabalho artesanal.

Dessa forma, a coleção pretende funcionar como uma ponte entre dois mundos: de um lado, os conhecimentos tradicionais construídos e preservados no território marajoara; de outro, o mercado contemporâneo da moda, que pode abrir novos espaços comerciais para esses saberes.

O desafio de transformar cultura em negócio

Para os envolvidos no projeto, a grande conquista não será apenas ver o grafismo marajoara em Milão, mas fazer com que essa visibilidade tenha continuidade.

A expectativa é que grandes marcas possam conhecer o trabalho dos artesãos e estabelecer relações comerciais que reconheçam qualidade, autoria, técnica e valor cultural.

A proposta, portanto, vai além da lógica de utilização de uma estética amazônica pela indústria da moda. O desafio está em construir um modelo no qual os próprios detentores desses conhecimentos sejam valorizados e participem dos benefícios gerados pela comercialização.

É nessa perspectiva que o projeto associa moda e empreendedorismo social. A coleção destaca justamente a intenção de integrar saberes ancestrais da Amazônia ao design contemporâneo e promover oportunidades de empreendedorismo.

O legado que atravessa gerações

O trabalho também dialoga com a história de preservação da cultura marajoara. O projeto relaciona a iniciativa ao legado do pesquisador italiano Padre Giovanni Gallo, que dedicou décadas à salvaguarda da memória e da cultura local.

Essa conexão ganha um significado especial justamente porque a coleção fará o caminho inverso: referências culturais preservadas no Marajó serão levadas à Itália, estabelecendo uma nova ponte cultural entre a Amazônia e o país europeu.

O Marajó na vitrine mundial

A chegada da coleção à Semana de Moda de Milão acontece em um momento de crescente repercussão do projeto no Brasil, vêm destacando a iniciativa e sua relação com moda sustentável, empreendedorismo, artesãos paraenses e cultura amazônica.

A repercussão ajuda a ampliar o debate sobre o potencial econômico da cultura amazônica e sobre a necessidade de criar caminhos para que comunidades tradicionais possam acessar novos mercados sem perder a conexão com seus territórios e conhecimentos.

Mais que uma coleção, uma possibilidade de futuro

A apresentação em Milão representa, assim, um momento simbólico: o grafismo marajoara deixa o território onde nasceu para dialogar com um público internacional, mas a intenção é que essa viagem não termine na passarela, no showroom ou nas páginas da imprensa.

O verdadeiro impacto poderá estar no retorno dessa visibilidade para a Ilha do Marajó — na formação de novos artesãos, no fortalecimento das mulheres, na inclusão de crianças e jovens, na geração de renda e na criação de novas oportunidades para quem preserva esses saberes.

A coleção da DOTZ transforma o calçado em uma espécie de embaixador cultural. Em cada estampa, bordado e desenho, existe a possibilidade de contar ao mundo que o Marajó não é apenas inspiração: é território de conhecimento, criatividade, identidade e produção cultural.

E, quando os modelos marajoaras forem apresentados em 23 de setembro, em Milão, estarão levando consigo uma mensagem que ultrapassa a moda: a ancestralidade também pode gerar inovação, negócios, reconhecimento e futuro para quem mantém viva a cultura amazônica.SERVIÇO

Missão Internacional Costurando Sonhos BrasilApresentação da coleção DOTZ + Artesãos da Ilha do Marajó: 23 de setembro de 2026Local: Consulado-Geral do Brasil em MilãoEndereço: Corso Europa, 12, 20122 Milano MI, ItáliaRealização: Instituto Costurando Sonhos BrasilColaboração: DOTZ, artesãos da Ilha do Marajó e G10 FavelasApoio à missão: https://doa.re/mLxe


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