Tecnologia
Com a participação do Pará, através da Rede Terra do Meio do Alto Xingu, uma pesquisa desenvolvida pela BIOINFOOD, deep tech paulista de biotecnologia industrial, conseguiu transformar a farinha do mesocarpo de babaçu — um subproduto que até agora não tinha destino industrial — em um ingrediente proteico viável para a indústria de alimentos. A Rede, que reúne 35 organizações de povos indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares, somando 9 milhões de hectares protegidos, forneceu amostras e recebeu a equipe em visitas às comunidades.
A tecnologia, desenvolvida em parceria com o Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), multiplica por mais de quatro vezes o teor proteico da farinha: de 1,5% para cerca de 7%. O resultado é um ingrediente com textura fibrosa, sabor equilibrado e potencial direto de uso em hambúrgueres e outros produtos que priorizam alimentos de origem vegetal minimamente processados conhecidos como plant-based.
Os resultados foram apresentados em abril de 2026 na New Meat Brazil, o principal evento de proteínas alternativas do país, em São Paulo. O projeto contou com financiamento de R$ 2,7 milhões do Fundo JBS pela Amazônia, por meio do Programa Biomas InovAmazônia do GFI Brasil.
“O InovAmazônia foi o maior projeto apoiado pelo fundo no eixo de Pesquisa e Desenvolvimento desde sua criação, em 2020. A Amazônia tem oportunidades que ainda não foram aproveitadas, e as pesquisas que apoiamos mostram que é possível construir um futuro diferente para as comunidades amazônicas e para toda a cadeia de alimentos brasileira. O projeto da BIOINFOOD com o babaçu é um exemplo concreto disso – ciência aplicada, ingrediente nacional e impacto real para quem vive da floresta. É esse tipo de resultado que justifica o investimento”, destaca Lucas de Oliveira Scarascia, Gerente Executivo de Projetos do Fundo JBS pela Amazônia.
Da quebradeira de coco ao ingrediente industrial
O babaçu é explorado há décadas de forma extrativista, sobretudo no Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins. Cerca de 62 mil pessoas em 50 mil domicílios vivem da atividade, com destaque para as quebradeiras de coco — mulheres que, por gerações, coletam, quebram e beneficiam o fruto manualmente. Apesar do potencial técnico da área disponível ser de 1,5 milhão de toneladas por ano, a produção atual mal passa de 4% desse total.
O principal produto da cadeia é o óleo, extraído da amêndoa. A farinha do mesocarpo — o que sobra — é praticamente descartada. É exatamente esse resíduo que a BIOINFOOD transformou em matéria-prima de alto valor.
“O InovAmazônia demonstrou que a biodiversidade brasileira não precisa ficar só no discurso – ela pode estar no prato. O projeto da BIOINFOOD com o babaçu é um exemplo concreto de como conseguimos uma sustentabilidade ainda maior quando olhamos para o aproveitamento completo de espécies nativas, agregando valor a partes que hoje são subaproveitadas. O Brasil tem como ser referência global em proteínas alternativas e iniciativas como essa mostram o caminho”, afirma Cristiana Ambiel, Diretora de Ciência e Tecnologia, GFI Brasil.
Como funciona a tecnologia
O processo combina seleção de cepas de levedura, hidrólise enzimática e fermentação em biorreatores automatizados. As leveduras convertem os açúcares da farinha em biomassa proteica — sem necessidade de novos cultivos ou desmatamento. A tecnologia já foi validada em escala laboratorial, com um protótipo de hambúrguer plant-based produzido e avaliado. O momento simbólico do projeto foi a degustação do hambúrguer à base de proteína de babaçu na cerimônia de encerramento do InovAmazônia, com a presença de Cornelia Rodrigues, a Nelinha do Babaçu, empreendedora maranhense que representa as comunidades de quebradeiras de coco.
A BIOINFOOD busca agora parceiros comerciais para a fase de escala piloto, com interesse especial em indústrias de ingredientes funcionais e empresas plant-based que queiram diversificar portfólio com matéria-prima nacional e rastreável.
“Ao gerar um ingrediente proteico alternativo, nosso projeto contribui diretamente para redução da dependência de proteínas de maior impacto ambiental e possibilita a diversificação das fontes de proteína vegetal, alinhada às estratégias de sustentabilidade e segurança alimentar. A tecnologia também estimula o modelo de uso sustentável de espécies nativas, sem necessidade de desmatamento ou cultivo intensivo com ampliação da aplicação do fruto do babaçu. Em termos de impactos sócio-econômicos, o destino mais nobre do coproduto da cultura do babaçu promove o aumento da renda das comunidades extrativistas e estimula a permanência das populações tradicionais em seus territórios”, diz Osmar Netto, PhD, co-fundador da BIOINFOOD e líder do projeto.
Mercado e internacionalização
O mercado global de proteínas alternativas deve atingir US$ 88,8 bilhões até 2034, crescendo a 14,3% ao ano. No Brasil, o setor movimentou R$ 1,13 bilhão em 2024, alta de 14% sobre o ano anterior. A demanda europeia e americana por ingredientes de origem sustentável, rastreável e com impacto socioambiental positivo cria uma janela real para a internacionalização da tecnologia.
A mesma plataforma de fermentação pode ser aplicada a outros coprodutos agroindustriais — farelo de trigo, milho e arroz, além de cascas de oleaginosas nativas como castanha-do-Brasil, macaúba e cupuaçu — ampliando significativamente o potencial da empresa.
“Quando uma deep tech como a BIOINFOOD traz um desafio real de mercado para dentro do laboratório, a ciência deixa de ser acadêmica e passa a ser instrumento de transformação econômica. O babaçu é um exemplo concreto de como a parceria entre instituição pública de pesquisa e empresa inovadora pode encurtar o caminho entre o coproduto e o ingrediente industrial, com rigor científico e viabilidade real de escala”, declara Roseli Ferrari, Pesquisadora Científica Nível VI e Diretora Técnica de Divisão, CCQA/ITAL.
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