Círio Alepa 2016
(Foto: Dina Santos)
Os mantos usados pela imagem de Nossa Senhora de Nazaré nas romarias do Círio da Assembleia Legislativa do Pará fazem parte da programação desde que a primeira procissão aconteceu. Confeccionados com miçangas simples ou pedras e fios de ouro, não importa. Os materiais dão à pequena imagem um figurino de rainha. O manto tem um significado especial de evangelização e, atualmente, é criado por um estilista. Mas, nem sempre foi assim.
Rosilda Borges, servidora aposentada, foi a grande responsável pelos mantos que vestiram Nsa Sra. de Nazaré nas comemorações do Legislativo paraense até o ano de 2013. O material era doado por outra servidora, Valdete Seabra, uma das fundadoras da Comissão de Catequese da Alepa. O bordado era todo feito por Rosilda. “Passavam muitos dias, às vezes até meses, trabalhando para confeccionar a peça. Até meu marido me ajudava a bordar”, lembra.
PROMESSA - Rosilda Borges desenhou 16 mantos para Nossa Senhora de Nazaré, entre os anos de 1997 e 2013. A devota conta que foi uma promessa. “Já consegui muitas graças de Nossa Senhora. A primeira foi a recuperação depois de uma cirurgia no joelho em que os médicos me disseram que eu não voltaria a andar, mas em seis meses estava boa. Meu marido também se recuperou de um infarto e consegui comprar nossa casa”, enumera Rosilda. “Por tantas graças, prometi que, enquanto enxergasse, faria os mantos para a minha Santa”.
E não era apenas a imagem principal do Círio da Alepa que ganhava as vestimentas especiais produzidas por Rosilda. “Também fazia mantos para as imagens que ficavam nos setores da Assembleia e de comunidades. Onde eu visse uma Santa sem manto, lá eu fazia e doava”, conta. No primeiro ano, Rosilda lembra que chegou a fazer quase 300 mantos que foram doados para comunidades de Belém. “Só para Bragança, enviei 80 mantos”, calcula.
Hoje, restam poucos mantos guardados no acervo da Comissão de Catequese. “Alguns estão nas imagens mantidas nos setores da Casa, outros foram doados ou vendidos. Mas não esqueço de nenhum e, se pudesse, refaria cada um deles para preservar a memória da nossa procissão”, afirma Rosilda.
Ela voltou à Assembleia Legislativa para rever os mantos expostos no hall de entrada do Palácio Cabanagem e se emocionou. “Venho todos os anos para ver como a Santinha está vestida e admirar sua beleza. Cada manto tem uma história de dedicação e sacrifício. Em um ano, quando fui engomar o manto, o ferro quente queimou o bordado. Tinha passado meses para confecciona-lo e faltavam apenas 18 dias para a procissão. Trabalhei nas madrugadas para conseguir refazer tudo de novo”, lembra Rosilda.
Para a aposentada, um manto azul, recoberto de canutilhos, está entre os preferidos que ela produziu. “Passei um ano para bordar tudo. Foi de Círio a Círio, mas Nossa Senhora de Nazaré merece que façamos o melhor”, conclui.
HISTÓRIA - Os mantos sempre foram utilizados para vestir as imagens da Virgem de Nazaré e têm o significado de proteção. A tradição de confeccionar o manto para o Círio teria sido implantada pelos portugueses como forma de homenagear a virgem. Diferente da sofisticação dos dias atuais, registros históricos dão conta que os primeiros mantos eram maiores que a imagem e tinham até anágua. O manto ganhou um formato triangular perfeito e armado em 1953. A imagem autêntica recebeu um manto bordado a ouro e pedras preciosas, além de receber a Coroa Pontifícia.
Segundo a lenda do achado da Imagem da Virgem de Nazaré, ela já estava com um manto no momento em que foi encontrada pelo caboclo Plácido, em 1700, às margens do igarapé Murucutu, onde hoje fica a Basílica Santuário em Belém. A estatueta vestia um manto "azul com gotas de orvalho”, onde estava grafado o nome "Nossa Senhora de Nazaré". Cerca de 300 anos depois, essa tradição se mantém: a vestimenta que cobre a imagem da santa se tornou um dos símbolos mais conhecidos do Círio.
Inicialmente o manto não era confeccionado todos os anos, devido ao alto custo financeiro. A situação mudou quando a irmã Alexandra, da Congregação das Filhas de Sant’Ana do colégio Gentil Bittencourt, dedicou-se a confeccionar um manto a cada ano, custeado por fiéis promesseiros.
Com a morte da irmã, assumiu o lugar Ester Paes França e, posteriormente, vários estilistas católicos ficaram com a missão de desenhar e confeccionar os mantos da padroeira dos paraenses, mantendo a tradição.
De acordo com historiadores, para os fiéis que acompanham o Círio em Belém, o manto de Nossa Senhora simboliza proteção, amparo e amor. Transmite e irradia a fé. Portanto, presentear a Virgem de Nazaré com um manto é agradecer diretamente à nobre rainha do céu pela proteção e bênçãos concedidas, por meio de sua interseção perante Deus.
Tags
CirioAlepa2016
Relacionadas
-
Círio Alepa 2016Do Rio Grande do Norte ao Pará: A fé que não vê distâncias
-
O esforço da féRomeiros de Castanhal pedalam e caminham até a Basílica Santuário de Nazaré, em Belém
-
Círio Alepa 2016Círio do Legislativo vai ter missa e procissão pelas ruas da Cidade Velha
-
Círio Alepa 2016O toque de fé, o toque de gratidão
-
Círio Alepa 2016Uma devota 'paraoca"... A distância que fortalece a fé!
-
Círio Alepa 2016De operador de som à devoto de Nsa. Sra. De Nazaré... Uma história de fé!
-
Círio Alepa 2016Manto: Brilho, dedicação e devoção vestem Nossa Senhora de Nazaré