Hanseníase

Grupo acompanhará situação da hanseníase no Pará

Esta foi uma das definições resultantes da audiência pública que tratou da situação da hanseníase no estado realizada na Alepa.

“Muitas vezes, nós temos que mentir. Não podemos dizer onde moramos para poder ter uma oportunidade de emprego”. Dona Iverlândia. (Foto: RedePara.Web.ViewModels.Sgn.Foto?.credito)

Esta foi uma das definições resultantes da audiência pública que tratou da situação da hanseníase no estado realizada na Alepa.

A primeira Audiência Pública conjunta entre a Comissão de Saúde e a Comissão de Direitos Humanos e Defesa do Consumidor, tratou sobre um tema que ainda marca negativamente o Pará.

Dificuldades para diagnosticar e tratar, preconceito e um histórico de segregação que ainda aflige pessoas atingidas pela hanseníase foram amplamente debatidas por especialistas e instituições interessadas.

O presidente da Comissão de Saúde, dr. Jaques Neves, abriu os trabalhos destacando que a situação da hanseníase no Brasil, especialmente no Pará é tão alarmante que chamou a atenção da Organização das Nações Unidas (ONU).

Durante o mês de maio deste ano, a relatora especial da ONU, Alice Cruz, esteve em Belém para investigar essas situações.
“Como parlamentar, médico e presidente desta comissão, eu não poderia me ausentar desta luta e essa realidade precisa mudar”, defendeu Neves.
 
História
O bairro do Guamá, em Belém, nasceu a partir do antigo “leprosário” fundado na Amazônia no final do século XIX, era o “Hospício dos Lázaros do Tucunduba”.

Quem relembrou foi o deputado Carlos Bordalo, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Defesa do Consumidor, durante o seu discurso.
Bordalo falou sobre esses espaços que serviam para segregar pessoas atingidas pela hanseníase do restante da sociedade.

“Fazer diagnóstico no Pará é uma luta quase que intransponível”, pontuou Bordalo ao revelar que também foi portador de hanseníase. “Eu pude fazer o tratamento e me curar mas quantos puderam ser atendidos por um profissional, quantos puderam ter o diagnóstico na hora certa?”.

Dados
Durante 20 anos de pesquisa sobre hanseníase no estado do Pará, o Professor Dr. Cláudio Salgado apresentou a situação da doença no território paraense.

Desde 2009, em parceria com instituições nacionais de fomento a pesquisa, o Professor Cláudio pesquisa em campo a situação de pessoas com a doença e as dificuldades de diagnóstico e tratamento.

“Estamos vivendo uma situação do passado num Estado do presente.” afirmou Cláudio ao mostrar como funciona o ciclo da hanseníase no Pará.
Segundo o professor, pessoas que não têm o diagnóstico da doença acabam infectando a família inteira. Na maioria dos casos, quando detectada, a doença já está no grau 2, que é quando gera alguma incapacidade física.

A informação assusta porque mostra a existência de uma população doente subnotificada, ou seja, que não consta nos dados oficiais.

O deputado Jaques atribui  a dificuldade em diagnosticar a falsa impressão de que a doença tenha sido eliminada, uma vez que os dados da Secretaria de Estado de Saúde Pública (SESPA) mostre um declínio no número de diagnósticos.

“O médico ou o enfermeiro raramente se interessa em estudar hanseníase ainda na faculdade justamente porque acredita que o Brasil já tenha erradicado a doença”, explicou o deputado que também defendeu a prevenção ainda na atenção básica.

Já o coordenador de Estudos Sobre a Hanseníase da SESPA, dr. Bruno Pinheiro, disse que a doença sofre com o estigma da relação com a pobreza. A Secretaria não é a responsável pela execução das políticas públicas nos municípios, mas assessora e gerencia para que as normas sejam cumpridas.

Bruno defendeu que “o diagnóstico precisa ser descentralizado e acessível a população e em qualquer lugar” e que é preciso também investir cada vez mais em capacitação das equipes, principalmente nas Estratégias de Saúde da Família.

Discriminação

O Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan) esteve presente na audiência. Muitos dos atingidos relataram o sofrimento durante o período de afastamento dos pais e do estigma por serem filhos de hansenianos.

Uma delas é a dona Iverlândia, 34 anos que falou na tribuna sobre a falta de oportunidade de emprego pela estigmatização da doença.

“Muitas vezes, nós temos que mentir. Não podemos dizer onde moramos para poder ter uma oportunidade de emprego”, disse Iverlândia e ponderou “mas há esperança, pois um novo governo assumiu o Estado”, referindo-se ao Governo Helder Barbalho.

Sobre este assunto, o diretor da Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (SEASTER) reconheceu as dificuldades de empregabilidade da população paraense como um todo. O diretor afirmou que está a disposição para ajudar nas políticas públicas sobre o assunto.

Providências
A Comissão de Saúde e a Comissão de Direitos Humanos e Defesa do Consumidor vão montar um Grupo de Trabalho para acompanhar a situação da hanseníase no Pará em seus diversos aspectos. o Grupo apresentará relatório a cada três meses.
Os deputados dr. Galileu e dr. Jaques vão disponibilizar, via emenda parlamentar compartilhada, uma ambulância tipo A para o município de Igarapé-Açu, para ficar a disposição da Vila de Santo Antônio do Prata.
As duas comissões irão elaborar documento relatando todas as reivindicações apresentadas durante a audiência pública e enviarão para o Ministério Público do Estado do Pará.


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